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sexta-feira, 29 de março de 2013

Um ano depois



29 de Marco de 2012 foi um dia mau. Acordei cedo de uma noite sem dormir e tinha no meu peito o peso maior que já senti. Despedi-me com abraços prolongados das ultimas pessoas e continuei a correnteza de lágrimas que os últimos dias já tinham assistido. Sentia-me uma prisioneira da vida, acorrentada a uma decisão inevitável que gostava de não ser obrigada a tomar. Sentia que me tinham roubado as opções de ser feliz, privado da companhia daqueles que mais gostava. Foi, sem duvida, um dos piores dias da minha vida. E as semanas seguintes não foram melhores, nunca são. E' muito difícil quando o coração puxa numa direcção e a cabeça na outra. Lutei comigo própria, com os outros, mas chegou um momento em que me cansei de tanta luta e finalmente desembaracei-me de medos e desencantos, deixando-me levar pela vida.  Nesse momento, tudo mudou, ainda estava eu tão longe de saber que aquele era só mais um começo  mais um reinventar-se, o primeiro dia do resto da minha vida. 

E neste ano que passou aprendi que a mudança só e' assustadora antes de se cumprir. E que mudar faz-nos crescer tanto. Aprendi muito, cresci não só como profissional mas também como pessoa. Tenho um emprego que gosto e onde me sinto apreciada pelos meus colegas, um sitio onde sinto que faço a diferença  Conquistei uma independência que iria demorar anos - será que o conseguiria algum dia? - em Portugal. Conheci gente nova e maravilhosa. Apaixonei-me por lugares e pessoas, vivi grandes momentos. Ganhei uma nova família aqui e sinto-me feliz e realizada. Aprendi que as vezes temos de arriscar para conseguir algo de bom.



Mas não se pense que foram só sorrisos e bons momentos. Mesmo que aqui se descubram novos amores e novas coisas que nos fazem francamente felizes, viver a muitos quilómetros daqueles que se ama não e' fácil, uma mão não lava a outra como se costuma dizer. Porque o amor `a distancia não e' para os fracos. E' preciso aprender a conviver connosco numa viagem solitária, com a saudade própria e com a saudade alheia. Esta continua a ser a parte mais difícil de viver longe, nas outras o coping e' eficaz, ainda que daqui tenha tirado grandes lições  Viver longe e' ser-se amigo do tempo. E saber que a contagem regressiva dos dias nos marca objectivos e nos da razoes para continuar. E' conhecer a alegria de cada reencontro e a tristeza de cada despedida. E' confiar que a distancia não muda a quantidade do sentimento, apenas a forma, convivendo pacificamente com viagens, esperas, filas de aeroporto, poupanças e pouca preguiça para empacotar a vida numa mala de mão e correr para aquele sitio que sempre chamaremos de casa.

Apesar disso, um ano depois, o balanço só pode ser positivo. E e' com esperança renovada que mais um começa  porque sei que, ainda que com grande risco, entre decisões instintivas e outras melhor pensadas, a vida tem reservada para mim maiores e melhores surpresas.

terça-feira, 19 de março de 2013

Do meu pai

Hoje e' um dia difícil por estes lados, e' o dia do Pai e eu estou a 2000 quilómetros do meu, longe pela primeira vez desde que eu sou sua filha e o meu pai e' meu pai. Logo haverá sessão no skype, como todos os dias, com direito a entrega de presente - como a minha mãe tão religiosamente prometeu entregar. Mas nada poderá pagar o preço da ausência de um abraço e de um beijinho de parabéns pai, gosto muito de ti. 
E' isso que e' este novo posto no seu essencial. O deixar escrito tudo aquilo que se gostaria de dizer olho no olho, talvez de braço dado ate'. Para que se possa ler hoje e reler amanha, quando um abraço for o mais essencial ou quando a saudade bater `a porta do coração.  



Pai, dizem que as tragédias da vida nos mostram o quão importantes são coisas que sempre demos como certas. E embora longe de considerar a minha vinda para Inglaterra uma tragédia - bem pelo contrario - foi só quando vim que me apercebi que tu, e a mãe  são ate ao momento as pessoas que mais marcaram a minha vida. Por isso, tanto te devo e tanto te tenho a agradecer. 

Obrigada por seres o pai que és. 
Estiveste sempre para mim em todos os momentos, e isso e' algo de que me conforta, pois sei que nunca estarei sozinha enquanto ai estiveres. Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras e as fotos não nos mentem. Estavas la quando nasci e entrei na tua vida, de uma forma tão marcada que hoje te faz dizer que o teu dia do pai e' aquele em que o foste efectivamente, esse sim e' o dia mais importante da tua vida de pai. Estavas la enquanto crescia, acompanhando-me nas minhas brincadeiras de menina pequena a fazer de mãezinha ou de professora e incentivando-me a aprender, a ser cada dia melhor (desculpa pelas colecções de livros que destruí nesse caminho de aprendizagem!). Ensinaste-me a andar de bicicleta e anos mais tarde a conduzir. Ensinaste-me que o azul e' a melhor cor do mundo e que e' saudável sermos apaixonados por alguma coisa na vida. Ensinaste-me a ser correcta, honesta e trabalhadora, através do teu exemplo. Explicaste-me que o respeito e' o melhor sentimento do mundo e que os momentos em que estamos com aqueles que amamos o que levamos da vida. Estavas la quando concorri `a faculdade e aceitaste a escolha que fiz, apesar de não concordares com ela. E passados quatro anos estavas la quando acabei o meu curso, com um orgulho desmedido a transbordar por todos os teus poros. E foste comigo entregar currículos  limpaste-me as lágrimas nas primeiras desilusões da vida de adulta, tentaste proteger-me das agruras dos tempos que correm mas, quando disse que para mim aquele era o fim da linha, apoiaste-me numa das decisões mais difíceis da minha vida e foi essa forca que me ajudou a ser feliz agora, aqui. Continuas comigo sempre, mesmo que a distancia geográfica nos separe, ainda que por períodos de tempo relativamente curtos. Tenho-te, a ti, `as tuas opiniões e aos sonhos que ainda guardas para mim, na minha maior consideração  e ainda hoje tudo o que esta mulher já feita, independente e crescida, quer e' agradar o seu paizinho.

Estas longe de mim, mas trago-te comigo pertinho do coração e jamais te esqueço  Sinto muito a tua falta no meu dia-a-dia. Um beijinho muito grande. Gosto muito de ti. 

Da tua filha Andreia.

(vemo-nos logo no skype)

[raio de teclado inglês que não me deixa por acentos nas palavras, valhai-me a correcção ortográfica portanto]

sábado, 2 de junho de 2012

Dos dois meses

Já se completaram os dois primeiros meses desde que vim para Londres. Que comecei a trabalhar aqui, que alarguei horizontes, ganhei novos amigos e uma vida completamente diferente. Já ganhei dois salários, daqueles de encher a alma. A casa que antes não era a minha agora já me parece familiar e acolhedora - ainda que estejamos a planear uma mudança para 'nossa' casa. Sinto-me mais crescida, melhor, mais eficiente e competente no meu trabalho. Sei mil vezes mais sobre cardiologia do que há dois meses atrás. Falo inglês todos os dias e elogiam-me a pronúncia. Cresci imenso, em todos os lados da minha vida. 

Hoje valorizo mais quem sou, quem está comigo. Dou mais importância às saudades, à família e aos amigos., mas também tenho a plena consciência de que tudo o que sonho está ao alcance da minha vontade. Se emigrar  para muitos é a réstia de esperança, para mim, como me disse ontem uma grande amiga, 'foi a melhor coisa que fizeste na tua vida'.

(um sunny sunday no Hyde Park)



quarta-feira, 23 de maio de 2012

Dos momentos maus

Existem momentos em que precisamos de uma metamorfose, de mudar.
Existem momentos em que somos corajosos para enfrentar o pior dos medos.
Existem momentos em que largamos tudo o que é seguro e tido como certo.
Existem momentos em que somos humildes e agradecemos o melhor que a vida nos deu.
Existem momentos em que desejamos ardentemente que os sonhos se cumpram.
Existem momentos em que nos repensamos e aceitamos que não estamos sempre certos.
Existem momentos em que pedimos desculpa pelas falhas e pelas fraquezas.
Existem momentos em que virámos a página e seguimos em frente.
Existem momentos em que renovamos a esperança.
Existem momentos em que vivemos em pleno e aproveitamos.
Existem momentos em que olhámos para trás e outros em que confiamos no que há de vir.
Existem momentos em que temos fé. Em nós, nos outros e em tudo o que de bom merecemos.

E depois existem momentos, como este. Em que o mundo treme debaixo dos nossos pés. E resta-nos apenas a fé e a esperança.

Força meu querido Zé Pedrinho, meu querido pequenino, tudo vai correr bem!

terça-feira, 22 de maio de 2012

Da que agora é a minha casa

A minha casa em Londres não é a casa da minha vida. Nem é a casa que sonhei ter quando vim para Londres. Mas é a minha casa. E as pessoas que vivem nela comigo já são um pouco a minha família. Porque já sabem tudo da minha vida e já começam a conhecer, ainda que ao de leve, os meus sonhos. E é por isto que nem a minha casa nem a família que tenho aqui merecem que me esqueçam deles. 

E um dia, quando morar na casa dos meus sonhos, com a família que me encha o coração e me ocupe por completo o coração, terei sempre na Poland House a doce recordação de onde comecei a minha vida. Por que não se esquece quem nos embala os sonos e nos acalenta os sonhos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Daquilo que nos faz crescer

Sempre vivi com os meus pais até me mudar para Londres. Mesmo nos tempos de faculdade, em que normalmente conquistamos a independência, estudei perto de casa e, portanto, continuei a morar com os meus pais. Vendo as coisas à distância, cresci pouco no que diz respeito a ser auto-suficiente e independente nesses tempos. Pelo mesmo motivo, fiquei perto da restante família e dos amigos que fui criando ao longo dos anos.

Para tudo tinha o pai e a mãe que ajudavam ou até faziam por mim. Quando não sabia ou receava ir sozinha, tinha sempre um amigo disponível. Nunca na vida tinha tratado sozinha de burocracias, de assuntos de finanças, rendas de casa, contratos, segurança social, água ou luz. Dos aspectos mais práticos, nunca tinha sentido a necessidade de limpar ou lavar a roupa. Eram aqueles assuntos que se resolviam na minha vida como por magia: se precisava, simplesmente estava lá.

E isto tornava-me ansiosa quando tinha de fazer algo importante por mim mesma: lidar com burocracias, com o banco, fazer uma viagem longa de carro sozinha... Mas, desde que cheguei, já andei sozinha por Stratford, fui abrir conta no banco, fui à descoberta sem saber bem por onde ia, tomei noção do que envolve viver sozinha e tratar de uma casa, partilhando-a com mais cinco pessoas. 

Na realidade, estou contente comigo mesma, porque me sinto a crescer de uma forma como nunca antes senti. Agora sou independente, responsável e finalmente uma adulta completa. Para ser feliz, faltam-me as minhas pessoas e consome-me, a cada dia, a saudade que aumenta. Se é fácil emigrar? Não, não é. Se o que descrevo parece um mar de rosas, posso afirmar certamente que não é. Os problemas e as dúvidas surgem em catadupa, as respostas nem sempre surgem, não é fácil, não é e ponto. Mas aguentamos-nos como podemos: afinal, estes são os primeiros dias do resto da nossa vida.


domingo, 8 de abril de 2012

Da Páscoa

Este ano é diferente. É igualmente a primeira de muitas das datas em que não estarei presente junto de mais um momento em família. E isto começa a maçar, a ideia de que a mudança é definitiva, que falharei as próximas Páscoas, os próximos Natais, os aniversários daqueles que me são mais queridos. E a certeza de que muitos desses momentos serão partilhados com desconhecidos que se tornarão quase uma família. 

Hoje é manhã de domingo de Páscoa. Aqui não há sol, nem cheiro a pão-de-ló, nem queijo da Serra, nem amêndoas. Não se ouvem foguetes, o compasso não toca o seu sino e as gentes ainda dormem. Há cheiro a rolo de carne assado, bolo de chocolate e pudim de croissant, para lembrarmos um pouco os cheiros familiares. Haverá uma garrafa de vinho maduro aberta sobre a mesa, sorrisos e partilha. Mas nada disso invalida o conforto de estar com aqueles que amamos.

Hoje o dia não será fácil. Mas é um dos revés que tenho de enfrentar para tentar ser feliz!

Um beijinho para todos, cheio de carinho. Boa Páscoa!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Carta aberta do Sr. Primeiro Ministro

Exmo. Sr. Primeiro Ministro Passos Coelho e, já agora, Exmo. Sr. Secretário de Estado do Desporto e da Juventude Alexandre Mestre,

Ou outros tantos nomes conhecidos da nossa praça pública a quem pode ser endereçada esta humilde carta aberta.

Começo por apresentar-me, tal como me diz a boa-educação que os meus pais sempre me incutiram. O meu nome é Andreia Soares, tenho vinte e três anos e nasci em Gondomar, perto do Porto. Sou filha única de uma família de classe média - daquelas que trabalham arduamente, pagam as suas contas, poupam dinheiro durante o ano para uma extravagância e que hoje os senhores teimam em dizimar com impostos -, filha de pais trabalhadores em que tudo o que conseguiram na vida foi fruto de muitas horas de trabalho árduo, daquele que massacra o corpo e cansa a alma. Certamente, não saberão do que estou eu para aqui a falar.

Na escola, sempre fui boa aluna e correspondi às expectativas que todos iam criando para mim. Conclui o ensino secundário com uma média de 18,1 valores e, em Setembro de 2006, então com dezassete anos, entrei na Escola Superior de Enfermagem do Porto com uma média de 17,9 valores, tendo como específicas Biologia e Química. Escolhi o meu curso de forma consciente: para além de ser aquele que mais me entusiasmava, li estudos acerca da sua importância no futuro, sustentados em argumentos como a demografia da população portuguesa, o drama do envelhecimento e as questões da morbilidade aumentada, da dotação dos hospitais e dos serviços de saúde bem como da necessidade de cuidados. Falei com enfermeiros, procurei saber qual o melhor curriculum escolar e fiz a minha escolha, ciente de que foi acertada.

Terminei o meu curso em Julho de 2010, com média de dezasseis valores. Apesar de tudo, aproveitei bem os meus anos de estudante. Contrabalançando tudo, consegui ser boémia e responsável ao mesmo tempo: sai, namorei, vivi, cometi excessos mas acabei o curso no tempo previsto, com boas notas, sem nunca ter deixado uma cadeira para trás, num CLE onde apenas três alunos conseguiram uma média melhor que a minha. Afinal estudar era a minha profissão e não podia falhar perante uns pais que me ofereceram esta oportunidade sem exigirem mais do que empenho e competência.

Uns meses depois de ter terminado o curso, conquistei o meu primeiro emprego. Precário, como quase todos os que são oferecidos por estes dias. Mal pago, mas exigente. Trabalhei e dei tudo de mim, mas nada disso me valeu o prolongamento do vínculo profissional. Não me rendi, continuei a procurar e, enquanto não   recebia nenhuma resposta positiva na minha área, trabalhei como operadora de call-center. Não baixei os braços, não me envergonhei e continuei a trabalhar no que ia aparecendo e a poupar o máximo que conseguia. Um tempo depois, após entregar tantos currículos que lhes perdi a conta e receber meia dúzia de respostas, sempre negativas, consegui um novo emprego na minha área. Desta vez, a proposta era melhorzinha, mas as perspectivas as mesmas: um emprego rotineiro, que não me permitia crescer, em que tinha de seguir regras que sabia profundamente erradas e dizer sempre que sim sob pena que a porta fosse a serventia da casa.

Pelo meio, paguei do mesmo bolso congressos, seminários e formações, o CAP, workshops ou tudo aquilo que me parecesse ter interesse ou utilidade. Participei num projecto de investigação na faculdade, onde eu e outra colega minha, licenciada no mesmo ano, éramos as únicas sem remuneração. Guardei para depois o sonho de uma pós-graduação em cuidados paliativos não fosse o diabo tecê-las, o emprego ir pelo cano abaixo e deixar eu os meus pais a braços com uma prestação referente à minha educação.

Ainda assim, sinto-me grata pelas experiências que tive e pelas oportunidades que me deram e que abandonei recentemente, cansada e frustrada, em troca de outra proposta mais aliciante. Uma proposta fantástica, que me dará condições para evoluir, que me permitirá a tão desejada independência financeira mas que me pede em troca o coração e a pátria. Inicio dia 29 de Março de 2012 funções como enfermeira no Whipps Cross University Hospital em Stratford, Londres.

Não pensem Sr. Ministro e Sr. Secretário de Estado que emigrar é um processo tão fácil e leviano como as palavras que saíram das vossas bocas quando mandaram os jovens emigrar, muito pelo contrário. Ainda que façamos de conta que não existe penosidade mental e emocional num processo de emigração, ainda não podia sequer candidatar-me a um emprego quando já tinha gasto grande parte do dinheiro que tão custosamente tinha amealhado. Entre documentos, traduções, certificações, fotocópias, notários, CTT e inscrição na Nursing and Midwifery Council foram-se mais de quinhentos euros. Depois, as exigências burocráticas, algumas incompreensíveis entre dois países da UE, como o passaporte, pagos a peso de ouro. E tudo isto é um processo solitário, demasiadamente até para quem possua fracos recursos.
E não se pense que termina por aqui. Depois da entrevista, da proposta e do contrato assinado, sobram as despesas da viagem, do alojamento, da alimentação, de um mês inteiro num país estrangeiro, a contar com a ajuda de familiares esforçados, à espera da tão ansiada independência financeira. Tantas vezes pensei o quão sortuda sou por ter uma família que, ainda que com algum custo, me pode apoiar e ajudar a procurar uma vida melhor, já que, nestas condições, sem ninguém que os ajude e apoie, muitos não o poderão fazer.


Senhor Primeiro-Ministro e Senhor Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, acabo aqui a minha resenha pessoal. Aos vinte e três anos, na expectativa de ter uma vida melhor, de conseguir exercer a actividade profissional para a qual fui treinada, cansada de lutar contra a maré, contra um regime corrupto e a cair de velho, vou-me embora, na certeza de que, por muito que o meu coração o peça, dificilmente voltarei para o meu país. Um país que apoia compadrios, sustenta os corruptos e maltrata os seus melhores, tratando-os como leprosos que têm de ser afastados. Talvez tudo tivesse sido mais fácil se ainda pequena me tivesse inscrito numa qualquer juventude, formatada ao som de uma doutrina podre e que leva invariavelmente ao mesmo caminho. Talvez fosse fácil se tivesse pais ricos ou uma cunha jeitosa. Talvez assim Portugal fosse a minha zona de conforto.

Mas não é nada assim. Sinto-me escorraçada do meu país, tratada como excedente, como alguém que não vale a pena. Sou forçada a abandonar o sítio onde cresci, a pôr em espera as amizades que fui criando e a partir, amputada de parte da minha vida e de todas as referências que criei. Vou triste e até um pouco amargurada, mas sei esses sentimentos serão vento de pouca dura quando vir reconhecido o meu trabalho. Portugal apenas poderá contar comigo nas férias e para renovar documentos. Quando eu tiver condições, os meus pais se reformarem e se o quiserem, farei questão de os levar comigo para viverem lá. Para com Portugal não terei nenhuma misericórdia e não contribuirei com mais um cêntimo sequer para este país acorrentado a uma classe política incompetente e inútil, que assiste impávido e sereno à sangria dos seus jovens e que quer levantar-se apoiado nas mesmas muletas que o fizeram cair e partir as duas pernas.

Obrigada Sr. Passos Coelho. Obrigada Sr. Secretário de Estado. Obrigada a quase três gerações de políticos que em cerca de trinta anos fizeram de Portugal um país sem futuro. Certamente que sair enquanto é tempo é a solução mais acertada e, por isso agradeço os vossos conselhos. Por muito que eu viva, fica a certeza de que não serão esquecidos.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Antecipação


Tomada que está talvez a decisão mais importante da minha vida, sendo eu feita para pensar, repensar, dormir sobre o assunto, pensar e voltar novamente a debruçar-me sobre as questões, chega a altura de sofrer por antecipação. De consciência, sei que ainda faltam alguns meses até que se concretize a mudança definitiva, sei que até lá ainda chegará um calvário de burocracia e algumas lágrimas ainda vão rolar, sei que a distância espacial e temporal não me permitirá ver o bom da mudança e apenas ressaltará a minha vontade de voltar atrás.

Antecipar a distância faz-me perceber uma coisa que até hoje nunca tinha percebido: as saudades são tramadas. Sei que vou ter saudades da minha mãe, de tudo o que ela me faz e que eu não valorizo, das chamadas aborrecidas mas que vão fazer tanta falta. Sei que vou ter saudades do meu pai, o pai herói que tudo faz para me agradar, que sei que me adora, que me vê como a sua pequenina e de quem sei que levarei comigo o seu coração. Sei que terei saudades da família, dos meus avós, dos meus tios, dos meus primos, dos almoços e jantaradas, das datas festivas e do amor que tantas vezes não se diz mas sente-se. Sei que terei saudades dos meus amigos, das conversas, das saídas, dos segredos e cumplicidades, da dedicação, das bebedeiras e das loucuras, das ternuras. Sei que terei saudades da minha cidade, de conduzir pelo trânsito da VCI, de ir ao Norteshopping, ao Piolho, de ver a bola no Dragão.

Conclusão: não podemos ter tudo, é uma inevitabilidade. A vida é tramada!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Querer bem

Hoje foi um dia normalíssimo, igual a muitos outros domingos. E ainda assim hoje aprendi o que significa querer bem a alguém.

Perante uma notícia, esbocei um sorriso, magiquei mil cenários e depois, numa simplicidade que me estranho, disse-lo. Perguntei-lhe se era pecado estar contente com o que se tinha passado. Ele, com a naturalidade que me encanta, respondeu-me que sim, que era, que estava triste e que eu não tinha sido a amiga que ele precisava naquele momento. Falhei redondamente e a minha eterna inadaptabilidade emotiva levou-me a falhar novamente quando, ao colmatar o erro, utilizei o recurso menos apropriado: ninguém queria rir naquele momento.

Mais tarde, às voltas na cama, já a noite ia adiantada e não conseguia dormir. Redimi-me da forma que sei e posso, mas ainda assim não é suficiente, porque hoje aprendi o que é querer bem a alguém, independentemente da forma como isso nos faça sentir. De querer que esse alguém esteja bem, feliz, de bem com a vida, ainda que a mim o sono me teime em fugir e a tranquilidade da noite não chegue.



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sei sim.

O que não tem remédio, remediado está!, costumam dizer. De nada me vale contrariar o eterno medo de ser feliz. Ou porque o timing nunca é o certo ou porque a pessoa é a errada ou então simplesmente mais uma vez não foi suficiente. Ou então porque, num olhar complacente espelhado numa máscara de miúda, não me levam a sério. Não sei, nem sequer me apetece tentar perceber agora. Quero apenas dizer que sei sim. Sei quem sou, sei o que quero, sei o que sinto, sei porque o sinto, sei por quem o sinto e, mais, sei o que o futuro pode trazer. E, por isso, estou tranquila, sem expectativas, sem mágoas, sem ressentimentos, apenas de bem comigo. E com ele.

Ainda assim, não posso admitir que me digam que não sei o que sinto, que peguei numa confusão e a transformei em algo que não existe. Sei que gosto dele quando ele me chama pelo nome pequenino, oh dezita, quando é cavalheiro, quando é querido, quando me respeita mais do que todos os outros, quando me acha tola e faladora demais, quando é natural e despreocupado, quando me diz para me acalmar e que faço tempestades num copo de água, quando se revela por inteiro, quando encarna o papel de protector, quando é tradicional e o diz sem pudor ou quando é rebelde sem causa.

E pronto. Se gostar tiver de ser uma loucura desenfreada, se o mundo tiver de parar de girar, se a palavra tiver de ser gritada aos quatros ventos, então eu não gosto. Mas se puder ser dita baixinha, ao ouvido, no nosso tempo, no nosso espaço, como somos, então gosto. E eu sei que gosto sim, assim, simples e bruto.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Por que prender a vida em conceitos e normas?

Não gosto de estereótipos, porque não compreendo que se possa reduzir a uma característica toda a essência de uma pessoa. Se é loira, não é necessariamente burra. Se é informático, não tem de ser nerd. Se é enfermeira, não tem de ser uma pin-up girl. Se é um homem de sonho não tem de ser alto, loiro, forte e de olhos azuis. 

 Prefiro alguém engraçado e de riso fácil do que alguém lindo. Prefiro um homem que sai com os amigos, que não vive em função de mim ou de nós, que adora um bom copo e, às vezes, até passa os limites, que gosta de desporto e assume que prefere ver a bola do que falar de livros, que não gosta de vestir um fato, que acha que fazer a barba é uma chatice necessária e que não sabe qual a marca de perfume que uso. Prefiro um homem que saiba que os pequenos prazeres da vida são aquilo que nos faz gostar de viver: comer, dormir, rir. Um homem que quer viver despreocupada e saudavelmente. 

 Não tem de ter músculos definidos, olhos azuis e cabelo louro; pode até ter uma barriguinha saliente, olhos castanhos banais e pouco cabelo. Não tem de ter o melhor emprego do mundo, apenas fazer aquilo que gosta com inteligência e saber. Não tem de ser o Mr. Right aos olhos dos meus pais: pode fumar, beber e até dizer uns palavrões de vez em quando, especialmente se a vida lhe corre mal, porque de certeza que noutros momentos me compensará com o seu humor. 

 Basta que seja feliz e que me faça feliz. 


 Inspirado num texto de Arnaldo Jabor.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Há canções e há momentos


Aleluia!

(imagem de Porto em Azul e Branco, de Hélder Pacheco)

Dúvida? Não. Mas luz, realidade
e o sonho que, na luta, amadurece.
- O de tornar maior esta cidade.
Eis o desejo que traduz a prece.

Só quem não sente o ardor da juventude
poderá vê-la de olhos descuidados.
Porto - palavra exacta. Nunca ilude.
Renasce, nela, a ala dos namorados!

Deram tudo por nós estes atletas.
Seu trajo tem a cor das próprias veias
e a brancura das asas dos poetas...
Ó fé de que andam nossas almas cheias!

Não há derrotas quando é firme o passo.
Ninguém fale em perder! Ninguém recua...
E a mocidade invicta em cada abraço
a si mais nos estreita. A pátria é sua.

E, de hora a hora, cresce o baluarte!
Lembro a torre dos Clérigos, às vezes...
Um anjo dá sinal quando ele parte...
São sempre heróis! São sempre portugueses!

E, azul e branca, essa bandeira avança...
Azul, branca, indomável, imortal.
Como não pôr no Porto uma esperança
se "daqui houve nome Portugal"?

Pedro Homem de Mello

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Daqueles amores que nunca serão amor

Já não o sentia há sete anos. Aquele amor que nunca será amor. Mas sete anos depois, continuo a achar que casava com ele.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

...

É sempre triste quando se perde uma vida, principalmente se ceifada nova, no auge do seu potencial. Gera intranquilidade, o sentimento de que a vida nos pode ser retirada a qualquer momento e que a morte não se compadece com o augurar de um futuro risonho.

Por outro lado, há vidas que merecem a devida homenagem, ainda que na morte. E por isso tenho de falar de Salvador Caetano, doutor da vida e dos negócios, pessoa que deixa saudades em Oliveira do Douro e um pouco por todo o país. Diz quem trabalhou consigo que era um empregador humilde e atento às dificuldades, preocupado. Morreu aos 85 anos, certamente de bem com a vida.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O prometido é devido


André Villas Boas chegou ao FC Porto como desconhecido para a maioria, conhecido como o adjunto de Mourinho por quem gosta e acompanha o futebol. Chegaram depois notícias que era adepto desde pequeno, que interpelou Robson quando este era treinador do FC Porto e lhe perguntou porque não punha o Domingos a jogar e que foi aí, debaixo da asa de um treinador campeão no FC Porto, que começou os seus voos, na altura rasantes. E digo rasantes, porque voos altos alcançou-os na época de 2010/2011, numa aposta ganha de Pinto da Costa, quando ganhou tudo o que tinha a ganhar no FC Porto, mais concretamente a Supertaça Nacional, o campeonato nacional, a Taça de Portugal e (a grande conquista!) a Liga Europa. Além de tudo isso, o FC Porto que teve como timoneiro André Villas-Boas deu-nos, a todos os portistas, recordações incríveis: os 5 a 0 no Dragão ao rival de Lisboa, a reviravolta na Luz, as goleadas, o campeonato invicto. André Villas-Boas tornou-se um herói na nação portista. Não apenas porque ganhou, mas porque era portista, daqueles de coração. Disse que não queria sair, que este era o seu emprego de sonho e, assim, conquistou um lugar no coração dos portistas, no meu também.

E por isso, foi com enorme incredulidade que vi, na segunda-feira, a notícia que André Villas-Boas poderia ter assinado pelo Chelsea. Primeiro não acreditei, mais um jornaleco de Lisboa a encanzinar a pré-época. Depois ignorei, quando o FC Porto emitiu o primeiro comunicado. Depois, enfureci-me. E a seguir racionalizei. Mas, no fim, desiludi-me profundamente.
Enfureci-me porque não se fazem promessas das quais não se tem intenção de cumprir. Enfureci-me, como sempre o faço quando nos prometem o mundo, embora saibam que não estão dispostos a conquistá-lo connosco. Enfureci-me porque não gosto que me mintam e muito menos suporto as incoerências.
Depois racionalizei. Foi um negócio e tanto, para o FC Porto e para o André Villas-Boas, principalmente quando já não estamos nos tempos das vacas gordas nem no futebol. Quinze milhões são um poderoso encaixe que estarão disponíveis para comprar novos reforços ou para solidificar o plantel já existente, mantendo assim alguns dos jogadores-chave. Para André Villas-Boas, o quíntuplo do que ganhava até agora anualmente. Para o FC Porto, agora é tempo de trabalho, verificar os danos, corrigi-los e iniciar a próxima época.

Mas, no final de tudo, resta-me uma enorme desilusão. Apesar de racionalmente ter de compreender a decisão, o meu coração de portista não pode deixar de se sentir traído, porque um portista não dá o dito por não dito. Um portista não sente uma paixoneta de verão pelo clube, ama-o até ao fim. Para mim, André Villas-Boas era alguém que, como eu, como o meu pai, sofria cada derrota, festejava cada golo, ansiava cada vitória e sentia o FC Porto como o seu clube. Acreditava inocentemente que, como eu ou o meu pai, seria capaz de treinar o FC Porto a custo zero se isso se impusesse. Mais, acreditava no compromisso que tinha anunciado, porque acredito que um Homem não deve faltar à sua palavra. Villas-Boas tinha tudo para sair pela porta grande, como um herói, aclamado por todos, adorado por todos os como ele, portistas. Poderia sair ainda este ano, poderia sair agora ou até depois, desde que não prometesse algo que não tinha a intenção de cumprir. Poderia, tal como eu lhe poderia desejar a melhor das sortes, uma carreira cheia de sucesso e que seja feliz profissionalmente. Mas, pelo coração morre este portista. Pelo menos para mim.

domingo, 1 de maio de 2011

Nem gregos nem troianos

Percebe uma coisa de uma vez por todas, não vais conseguir agradar a todos.

De um lado, estarão aqueles que te criticarão o ser, desprezarão o intelecto, troçarão do sentido de humor, acharão tua pertença todos os defeitos dos homens. Desse lado, os mesmos apontarão o dedo em riste aos teus erros e afiarão a língua inflamada de ofensas e intrigas contra ti, como flechas cravadas na carne pela força das palavras. Do mesmo lado da barricada, outros assobiarão para o lado, ignorar-te-ão, achando-te desinteressante e vazia, pensando que o seu tempo é curto e precioso para ser gasto contigo.

Do outro lado, adorar-te-ão em forma de quase culto. Abanarão a cabeça em sinal de concordância, elogiar-te-ão a esperteza, o intelecto, o ser e as habilidades que concentras em ti. Jamais seguirão um caminho diferente do teu, defender-te-ão com unhas e dente, mesmo que isso lhes custe a credibilidade e o bom-nome.

Depois, há aqueles no caminho entre o oito e o oitenta. Que nuns dias te acharão disparatada, mas noutros afirmarão em pleno que a certeza está do teu lado. Que hoje não estão com a mínima paciência para a tua conversa que lhes parece insípida, mas amanhã chorarão às gargalhadas com o que contas. São aqueles que, no dia mais negro, conseguirão lembrar-se da tua humanidade, aceitando a estupidez. Porque para esses, és como és, nem sempre boa, nem sempre má.

És apenas tu, e ainda assim eles gostam de ti.

[post agendado]

segunda-feira, 28 de março de 2011

Deixar crescer

Na semana que termina Setembro, ano após ano, o ritual repete-se. Eles chegam, são jovens e agora conseguiram o que, com maior ou menor esforço, todos ambicionavam, o ensino superior. Muitos chegam de longe, com malas cheias de pertences e com os corações carregados de saudades. Para trás, deixaram uma terra pequena, a família e os amigos com quem cresceram até ali. Mas chegam no primeiro dia daquela nova vida, cheios de uma coragem que mascara o medo e a ansiedade. 

Entram com passos pequenos, tímidos. Ainda não percebem que ali passarão os melhores anos da sua vida. Em conversas envergonhadas, percebem que não são os únicos que se sentem perdidos num mundo novo, há mais alguém assim e formam-se alianças. De soslaio, chamam nomes aos mais velhos, que já por lá andavam e a quem agora chamam de doutores. Mas o tempo passa e um ano ganha a dimensão de um dia se vivido intensamente. Tal como quatro passam a voar.

No fim, percebo que me afeiçoei, mais do que esperava àqueles pequenos que vi entrar há quatro anos atrás pelos portões da que foi, é e sempre será a minha segunda casa. Penosamente, eles choram. Talvez se apercebam do mesmo, que o tempo é escasso e o deles também chegou ao fim. A mim, resta-me limpar-lhes as lágrimas, tranquilizar-lhes a alma e esconder a lagrimita que teima em cair como se eu fosse àquela mãe que quatro anos antes também os viu partir.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Tristeza e escrita não rimam

Mais uma chapada. Mais um não. Mais um obrigado, mas não é o que precisamos no momento. Mais um, numa enxurrada de nãos tão desmotivadores. Do inconformismo que vivo, não sei que mais fazer sem que tenha de abdicar de mim, da minha integridade, da minha moral porque os meus sonhos e as minhas ambições já estão bem arrumadinhos, embrulhados numa fita dourada, à espera de um dia mais solarengo, talvez um dia. São tantas as portas que se fecham à minha frente que começo a duvidar se haverá futuro, para mim, para nós. Para a semana, há mais uma tentativa, quase vazia de esperanças. Ai, estou cansada. Mas, felizmente, não me faltam braços onde descansar antes de mais uma batalha.

[não gosto nada de escrever quando estou triste, em nome de alguma qualidade literária. mas sabe bem à alma, e por isso escrevo]