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sexta-feira, 29 de março de 2013

Um ano depois



29 de Marco de 2012 foi um dia mau. Acordei cedo de uma noite sem dormir e tinha no meu peito o peso maior que já senti. Despedi-me com abraços prolongados das ultimas pessoas e continuei a correnteza de lágrimas que os últimos dias já tinham assistido. Sentia-me uma prisioneira da vida, acorrentada a uma decisão inevitável que gostava de não ser obrigada a tomar. Sentia que me tinham roubado as opções de ser feliz, privado da companhia daqueles que mais gostava. Foi, sem duvida, um dos piores dias da minha vida. E as semanas seguintes não foram melhores, nunca são. E' muito difícil quando o coração puxa numa direcção e a cabeça na outra. Lutei comigo própria, com os outros, mas chegou um momento em que me cansei de tanta luta e finalmente desembaracei-me de medos e desencantos, deixando-me levar pela vida.  Nesse momento, tudo mudou, ainda estava eu tão longe de saber que aquele era só mais um começo  mais um reinventar-se, o primeiro dia do resto da minha vida. 

E neste ano que passou aprendi que a mudança só e' assustadora antes de se cumprir. E que mudar faz-nos crescer tanto. Aprendi muito, cresci não só como profissional mas também como pessoa. Tenho um emprego que gosto e onde me sinto apreciada pelos meus colegas, um sitio onde sinto que faço a diferença  Conquistei uma independência que iria demorar anos - será que o conseguiria algum dia? - em Portugal. Conheci gente nova e maravilhosa. Apaixonei-me por lugares e pessoas, vivi grandes momentos. Ganhei uma nova família aqui e sinto-me feliz e realizada. Aprendi que as vezes temos de arriscar para conseguir algo de bom.



Mas não se pense que foram só sorrisos e bons momentos. Mesmo que aqui se descubram novos amores e novas coisas que nos fazem francamente felizes, viver a muitos quilómetros daqueles que se ama não e' fácil, uma mão não lava a outra como se costuma dizer. Porque o amor `a distancia não e' para os fracos. E' preciso aprender a conviver connosco numa viagem solitária, com a saudade própria e com a saudade alheia. Esta continua a ser a parte mais difícil de viver longe, nas outras o coping e' eficaz, ainda que daqui tenha tirado grandes lições  Viver longe e' ser-se amigo do tempo. E saber que a contagem regressiva dos dias nos marca objectivos e nos da razoes para continuar. E' conhecer a alegria de cada reencontro e a tristeza de cada despedida. E' confiar que a distancia não muda a quantidade do sentimento, apenas a forma, convivendo pacificamente com viagens, esperas, filas de aeroporto, poupanças e pouca preguiça para empacotar a vida numa mala de mão e correr para aquele sitio que sempre chamaremos de casa.

Apesar disso, um ano depois, o balanço só pode ser positivo. E e' com esperança renovada que mais um começa  porque sei que, ainda que com grande risco, entre decisões instintivas e outras melhor pensadas, a vida tem reservada para mim maiores e melhores surpresas.

sábado, 2 de junho de 2012

Do país que me conquistou em três segundo

Esqueçamos Portugal pelo tempo suficiente para terminar de ler o próximo parágrafo.

O meu país de eleição é Inglaterra. Cheguei, vi-o e conquistou-me, tal e qual como um amor à primeira vista. Não lhe consigo fechar o coração, dizer que não gosto. Inglaterra é um óptimo país para se começar uma vida. As pessoas são liberais, apaixonadas e as amizades melting pot que se começam a fazer são deliciosas. Aqui pode-se acreditar nos sonhos, podemos ser quem quisermos, confiar nas gentes. Há leis, há castigos, há erros mas também há o poder da redenção. Há uma auto-estima notável e um amor próprio pelos seus e pelo que é seu de fazer inveja, ainda que esteja de coração aberto à novidade e ao que é diferente. Inglaterra é um grande país, é o meu país real para viver e vejo-me aqui (pelo menos) nos próximos anos, ainda que possa viver aqui lifetime long e ser feliz.


Mas Portugal é aquele que tem o meu coração. Porque é feito de abraços, reencontros, carinhos, tempo e alegria permanente. Onde não penso no trabalho, nem na casa para arrumar. Onde não há domingos à noite nem segundas-feiras. Onde o dia-a-dia não tira a magia às coisas. De onde sinto saudades todos os dias que passo no meu país real. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Da que agora é a minha casa

A minha casa em Londres não é a casa da minha vida. Nem é a casa que sonhei ter quando vim para Londres. Mas é a minha casa. E as pessoas que vivem nela comigo já são um pouco a minha família. Porque já sabem tudo da minha vida e já começam a conhecer, ainda que ao de leve, os meus sonhos. E é por isto que nem a minha casa nem a família que tenho aqui merecem que me esqueçam deles. 

E um dia, quando morar na casa dos meus sonhos, com a família que me encha o coração e me ocupe por completo o coração, terei sempre na Poland House a doce recordação de onde comecei a minha vida. Por que não se esquece quem nos embala os sonos e nos acalenta os sonhos.

domingo, 29 de abril de 2012

Do meu serviço de cardiologia

Cardiologia não é a minha área favorita para trabalhar. Já o sabia antes de me ser atribuído o serviço mas apercebi-me definitivamente que, apesar de ser enfermeira com gosto em qualquer sítio desde que haja pessoas para cuidar, a área de cardiologia não me apaixona da mesma forma como a pediatria ou os cuidados paliativos (dois extremos, quase antagonistas, eu sei, eu sei....). A acrescentar ao facto de não gostar muito da área, não a domino e não domino totalmente a língua em que tenho de me expressar, o que tudo juntinho e bem misturado, me cria ansiedade. 

Começamos há duas semanas nos serviços a trabalhar a sério, apesar de ainda sermos supranumerárias na primeira semana (deveríamos sê-lo durante quatro semanas mas estamos em tão short staff que nos largaram ao leões na segunda semana). A diferença entre os cuidados de enfermagem prestados aqui e os prestados em Portugal é enorme, o que mais uma vez foi um choque cultural (e técnico) difícil de digerir. Aqui aspectos essenciais do cuidar, como a promoção da independência e do autocuidado, são esquecidos em prole da medicação e de assuntos médicos que nos passariam totalmente ao lado em Portugal - exemplo, análises clínicas do doente. As rondas de medicação duram eternidades e são o processo mais desorganizado que já vi: uma ronda de medicação demora cerca de duas horas. Basicamente os enfermeiros aqui deixam de ter aquelas coisas de posicionar e coisas pesadas para terem que dar a medicação com atenção (tipo duas horas para a medicação das oito a.m). Como ainda sou nova no serviço, só fiz manhãs e tardes - só começarei a fazer noites e long days a partir do próximo horário, que se inicia a 13 de Maio. As patologias mais típicas do nosso serviço são as falências cardíacas, dor no peito, infartes do miocárdio, bloqueios cardíacos e doentes que realizaram angioplastia. São quase todos independentes, mas quando não o são estão realmente descompensados e very sick, como se diz aqui.

O problema é que aqui, embora não seja um trabalho muito físico e até haja talvez um dia por semana (numa boa semana) que é bastante tedioso, o caos instala-se facilmente porque são os enfermeiros que lidam com toda a burocracia: admissões com mais de dez páginas de formulários para preencher, faxes para enviar, contactar a farmácia, os GP's e as district nurses, marcar appointments com as enfermeiras especialistas e as reuniões multidisciplinares. É por esta falta de organização e por todos os registos serem feitos em papel que um serviço com doentes independentes pode transformar-se num autêntico circo, bastando para isso que se faça mais de uma admissão num curto período de tempo.

No que diz respeito à equipa, e incluindo aqui obviamente as minhas colegas portuguesas, só posso tecer os maiores elogios. São todos muito prestáveis, pacientes e o melhor é que há sempre chocolate no serviço, porque os nossos doentes são uns fofinhos que quando têm alta nos deixam cartões de obrigado e chocolates. Ontem, convidaram-nos para sairmos todos juntos, porque era o jantar de despedida da manager que saiu do serviço e que não chegamos a conhecer. Acabamos por não ir, porque fomos sair com outros enfermeiros portugueses que vieram antes de nós e que vivem no mesmo prédio. Não me arrependo de não ter ido, porque ainda não me sinto completamente à vontade, mas sinto que a equipa está contente com a nossa chegada e quer mesmo integrar-nos no seu meio. E isso é de certo modo reconfortante, quando ainda nos sentimos um pouco perdidas naquele ambiente.

Hoje faz um mês que cheguei a Inglaterra e na quarta-feira um mês que me tornei oficialmente enfermeira no Elizabeth ward - Cardiology no Whipps Cross University Hospital. A vida corre bem, o tempo passa rápido e dia 11 de Maio já volto por uma semana a Portugal. Ainda não temos rotinas criadas, não conseguimos estabelecer coisas certas e inimputáveis, não sabemos o dia de amanhã, mas sei que estou no sítio certo e, agora sim, sinto-me feliz profissionalmente, embora me façam falta agora coisas e pessoas que antes não dava valor porque sentia como certas.


Um mês, um mês inteirinho... Quem diria?

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Daquilo que nos faz crescer

Sempre vivi com os meus pais até me mudar para Londres. Mesmo nos tempos de faculdade, em que normalmente conquistamos a independência, estudei perto de casa e, portanto, continuei a morar com os meus pais. Vendo as coisas à distância, cresci pouco no que diz respeito a ser auto-suficiente e independente nesses tempos. Pelo mesmo motivo, fiquei perto da restante família e dos amigos que fui criando ao longo dos anos.

Para tudo tinha o pai e a mãe que ajudavam ou até faziam por mim. Quando não sabia ou receava ir sozinha, tinha sempre um amigo disponível. Nunca na vida tinha tratado sozinha de burocracias, de assuntos de finanças, rendas de casa, contratos, segurança social, água ou luz. Dos aspectos mais práticos, nunca tinha sentido a necessidade de limpar ou lavar a roupa. Eram aqueles assuntos que se resolviam na minha vida como por magia: se precisava, simplesmente estava lá.

E isto tornava-me ansiosa quando tinha de fazer algo importante por mim mesma: lidar com burocracias, com o banco, fazer uma viagem longa de carro sozinha... Mas, desde que cheguei, já andei sozinha por Stratford, fui abrir conta no banco, fui à descoberta sem saber bem por onde ia, tomei noção do que envolve viver sozinha e tratar de uma casa, partilhando-a com mais cinco pessoas. 

Na realidade, estou contente comigo mesma, porque me sinto a crescer de uma forma como nunca antes senti. Agora sou independente, responsável e finalmente uma adulta completa. Para ser feliz, faltam-me as minhas pessoas e consome-me, a cada dia, a saudade que aumenta. Se é fácil emigrar? Não, não é. Se o que descrevo parece um mar de rosas, posso afirmar certamente que não é. Os problemas e as dúvidas surgem em catadupa, as respostas nem sempre surgem, não é fácil, não é e ponto. Mas aguentamos-nos como podemos: afinal, estes são os primeiros dias do resto da nossa vida.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Das primeiras novidades de Londres

Hoje é o quarto dia em Stratford, East London. E, de uma forma geral, esquecendo os momentos cansativos, tudo tem corrido muito bem. E até agora nunca me arrependi um momento que fosse da decisão de vir.

Começando por Stratford, tudo é muito citadino, cheio de lojas que nos parecem estranhas e que ora são de quinquilharia ou restaurantes com ares manhosos. Estou a caricaturar um pouco sobre aquilo que nos parece à primeira vista se quisermos ser más-línguas porque, no fundo, estamos muito bem localizados no que diz respeito as bens essenciais, lojas, restauração e divertimento. Só para contextualizar um pouco, tenho à minha porta o maior centro comercial da Europa, Westefield Center. As casas parecem sujas e velhas por fora mas, das experiências que tive - a minha casa e o hospital, por exemplo - são modernas e arrumadas no interior. As pessoas tão ainda me parecem um pouco estranhas mas riem-se para nós na rua e, tirando um funcionário do aeroporto, foram todas simpáticas e muito faladoras. Contudo, aqui vê-se um melting pot enorme, com estilos, roupas e maneiras de agir para todos os gostos e feitios, ainda que nesta área predomine uma comunidade muçulmana bastante grande, que se faz notar na rua por muitas mulheres com cabelos tapados. Além disso, vêem-se igualmente muitos indianos, com um sotaque difícil de entender, mas bastante simpáticos e prestáveis. Vêem-se também muitos Príncipes Harrys, homens altos, atléticos, ruivos, charmosos e com um sorrisinho bonito. A continuar assim, Inglaterra tem futuro.

Do alojamento, posso dizer que tivemos sorte. A casa é grande, tem seis quartos, duas casas de banho e uma cozinha com uma mesa de jantar desengonçada e dois cadeirões-sofás individuais pequenitos. Não me posso queixar particularmente, porque fiquei com um dos dois maiores quartos: tem imenso espaço (até demais para as poucas coisas que pude trazer comigo), uma mesinha e uma cómoda, um armário embutido, uma cama que não é muito ao meu gosto, uma secretária com cadeira e prateleira para arrumação e janelas enormes, por onde entra o sol e de onde se vê toda a rua. Temos ainda internet, aquele bem que se tornou essencial na minha vida, quase tanto como comida e roupa, para matar as saudades que se vão sentindo, especialmente nalguns momentos.

Por sua vez, do grupo que veio, a sorte não me podia ter dado melhores colegas de casa. A Cristina e a Patrícia, as outras duas meninas, já me são caras conhecidas e familiares desde a faculdade. Para já temos-nos dado muito bem e até nos acho bastante compatíveis na maioria das coisas que dizem respeito a viver sobre o mesmo tecto: alimentação, economia, limpeza, privacidade, aquilo a que não damos valor quando vivemos vinte e três numa casa com os  nossos pais, as pessoas que conhecemos e que nos conhecem desde sempre. Os outros dois quartos foram ocupados por dois rapazes de Braga, o Gil e o Pedro. O tempo ainda é curto, a convivência também mas para já parecem ser pessoas cinco estrelas, calmas e tranquilas, que gostam de gozar a vida, o que me agrada bastante. Por isso, acho que me saiu a sorte grande no que diz respeito aos roommates.

Quanto ao trabalho a sério, ainda não começou. Já nos foram apresentadas as chefes, fizemos a consulta de saúde ocupacional - conto-vos a história noutro post - e já fomos medidas para serem feitas as fardas. As fardas são o único aspecto que me desagradou do hospital até agora, porque são feias de morrer - pelo menos sei que se não tiver sucesso em enfermagem posso usar aquela farda para ser empregada na cantina de uma escola em Portugal. De resto parece-me um sítio moderno, limpo, com bom ar e onde vou gostar de trabalhar. O serviço também nos foi atribuído, ainda que a Dee - a responsável pelo nosso recrutamento através da KCIR - já nos tivesse dito: cardiologia. Ora, bom para currículo, interessante e dinâmico, mas vou ser obrigada a rever e a ampliar largamente os meus conhecimentos, porque é uma área que não domino totalmente.

Das saudades, ainda não se fazem sentir em plena força, porque ainda é como se estivesse de férias em Londres - também só passaram quatro dias, ainda que a sensação de mudança e ausência permanente seja uma coisa que me atormenta desde que estava em Portugal. E é naqueles momentos em que falo com os meus pais religiosamente todas as noites que percebo o quão importantes eles são na minha vida e fico com um apertozinho no coração, porque não sei quando é que lhes vou poder voltar a dar um abraço e um beijinho, dizer-lhes que os amo e que são eles os pilares da minha vida. Mas eles estão a aguentar-se bem e eu, para já, acho que também!

Para já, é isto que me lembro! São tantas novidades e tantas coisas diferentes que se torna difícil descrever tudo. Mas desde já uma certeza: é a maior e mais difícil aventura da minha vida, sem dúvida, mas é também um dos melhores passos que já dei. 

quarta-feira, 14 de março de 2012

Carta aberta do Sr. Primeiro Ministro

Exmo. Sr. Primeiro Ministro Passos Coelho e, já agora, Exmo. Sr. Secretário de Estado do Desporto e da Juventude Alexandre Mestre,

Ou outros tantos nomes conhecidos da nossa praça pública a quem pode ser endereçada esta humilde carta aberta.

Começo por apresentar-me, tal como me diz a boa-educação que os meus pais sempre me incutiram. O meu nome é Andreia Soares, tenho vinte e três anos e nasci em Gondomar, perto do Porto. Sou filha única de uma família de classe média - daquelas que trabalham arduamente, pagam as suas contas, poupam dinheiro durante o ano para uma extravagância e que hoje os senhores teimam em dizimar com impostos -, filha de pais trabalhadores em que tudo o que conseguiram na vida foi fruto de muitas horas de trabalho árduo, daquele que massacra o corpo e cansa a alma. Certamente, não saberão do que estou eu para aqui a falar.

Na escola, sempre fui boa aluna e correspondi às expectativas que todos iam criando para mim. Conclui o ensino secundário com uma média de 18,1 valores e, em Setembro de 2006, então com dezassete anos, entrei na Escola Superior de Enfermagem do Porto com uma média de 17,9 valores, tendo como específicas Biologia e Química. Escolhi o meu curso de forma consciente: para além de ser aquele que mais me entusiasmava, li estudos acerca da sua importância no futuro, sustentados em argumentos como a demografia da população portuguesa, o drama do envelhecimento e as questões da morbilidade aumentada, da dotação dos hospitais e dos serviços de saúde bem como da necessidade de cuidados. Falei com enfermeiros, procurei saber qual o melhor curriculum escolar e fiz a minha escolha, ciente de que foi acertada.

Terminei o meu curso em Julho de 2010, com média de dezasseis valores. Apesar de tudo, aproveitei bem os meus anos de estudante. Contrabalançando tudo, consegui ser boémia e responsável ao mesmo tempo: sai, namorei, vivi, cometi excessos mas acabei o curso no tempo previsto, com boas notas, sem nunca ter deixado uma cadeira para trás, num CLE onde apenas três alunos conseguiram uma média melhor que a minha. Afinal estudar era a minha profissão e não podia falhar perante uns pais que me ofereceram esta oportunidade sem exigirem mais do que empenho e competência.

Uns meses depois de ter terminado o curso, conquistei o meu primeiro emprego. Precário, como quase todos os que são oferecidos por estes dias. Mal pago, mas exigente. Trabalhei e dei tudo de mim, mas nada disso me valeu o prolongamento do vínculo profissional. Não me rendi, continuei a procurar e, enquanto não   recebia nenhuma resposta positiva na minha área, trabalhei como operadora de call-center. Não baixei os braços, não me envergonhei e continuei a trabalhar no que ia aparecendo e a poupar o máximo que conseguia. Um tempo depois, após entregar tantos currículos que lhes perdi a conta e receber meia dúzia de respostas, sempre negativas, consegui um novo emprego na minha área. Desta vez, a proposta era melhorzinha, mas as perspectivas as mesmas: um emprego rotineiro, que não me permitia crescer, em que tinha de seguir regras que sabia profundamente erradas e dizer sempre que sim sob pena que a porta fosse a serventia da casa.

Pelo meio, paguei do mesmo bolso congressos, seminários e formações, o CAP, workshops ou tudo aquilo que me parecesse ter interesse ou utilidade. Participei num projecto de investigação na faculdade, onde eu e outra colega minha, licenciada no mesmo ano, éramos as únicas sem remuneração. Guardei para depois o sonho de uma pós-graduação em cuidados paliativos não fosse o diabo tecê-las, o emprego ir pelo cano abaixo e deixar eu os meus pais a braços com uma prestação referente à minha educação.

Ainda assim, sinto-me grata pelas experiências que tive e pelas oportunidades que me deram e que abandonei recentemente, cansada e frustrada, em troca de outra proposta mais aliciante. Uma proposta fantástica, que me dará condições para evoluir, que me permitirá a tão desejada independência financeira mas que me pede em troca o coração e a pátria. Inicio dia 29 de Março de 2012 funções como enfermeira no Whipps Cross University Hospital em Stratford, Londres.

Não pensem Sr. Ministro e Sr. Secretário de Estado que emigrar é um processo tão fácil e leviano como as palavras que saíram das vossas bocas quando mandaram os jovens emigrar, muito pelo contrário. Ainda que façamos de conta que não existe penosidade mental e emocional num processo de emigração, ainda não podia sequer candidatar-me a um emprego quando já tinha gasto grande parte do dinheiro que tão custosamente tinha amealhado. Entre documentos, traduções, certificações, fotocópias, notários, CTT e inscrição na Nursing and Midwifery Council foram-se mais de quinhentos euros. Depois, as exigências burocráticas, algumas incompreensíveis entre dois países da UE, como o passaporte, pagos a peso de ouro. E tudo isto é um processo solitário, demasiadamente até para quem possua fracos recursos.
E não se pense que termina por aqui. Depois da entrevista, da proposta e do contrato assinado, sobram as despesas da viagem, do alojamento, da alimentação, de um mês inteiro num país estrangeiro, a contar com a ajuda de familiares esforçados, à espera da tão ansiada independência financeira. Tantas vezes pensei o quão sortuda sou por ter uma família que, ainda que com algum custo, me pode apoiar e ajudar a procurar uma vida melhor, já que, nestas condições, sem ninguém que os ajude e apoie, muitos não o poderão fazer.


Senhor Primeiro-Ministro e Senhor Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, acabo aqui a minha resenha pessoal. Aos vinte e três anos, na expectativa de ter uma vida melhor, de conseguir exercer a actividade profissional para a qual fui treinada, cansada de lutar contra a maré, contra um regime corrupto e a cair de velho, vou-me embora, na certeza de que, por muito que o meu coração o peça, dificilmente voltarei para o meu país. Um país que apoia compadrios, sustenta os corruptos e maltrata os seus melhores, tratando-os como leprosos que têm de ser afastados. Talvez tudo tivesse sido mais fácil se ainda pequena me tivesse inscrito numa qualquer juventude, formatada ao som de uma doutrina podre e que leva invariavelmente ao mesmo caminho. Talvez fosse fácil se tivesse pais ricos ou uma cunha jeitosa. Talvez assim Portugal fosse a minha zona de conforto.

Mas não é nada assim. Sinto-me escorraçada do meu país, tratada como excedente, como alguém que não vale a pena. Sou forçada a abandonar o sítio onde cresci, a pôr em espera as amizades que fui criando e a partir, amputada de parte da minha vida e de todas as referências que criei. Vou triste e até um pouco amargurada, mas sei esses sentimentos serão vento de pouca dura quando vir reconhecido o meu trabalho. Portugal apenas poderá contar comigo nas férias e para renovar documentos. Quando eu tiver condições, os meus pais se reformarem e se o quiserem, farei questão de os levar comigo para viverem lá. Para com Portugal não terei nenhuma misericórdia e não contribuirei com mais um cêntimo sequer para este país acorrentado a uma classe política incompetente e inútil, que assiste impávido e sereno à sangria dos seus jovens e que quer levantar-se apoiado nas mesmas muletas que o fizeram cair e partir as duas pernas.

Obrigada Sr. Passos Coelho. Obrigada Sr. Secretário de Estado. Obrigada a quase três gerações de políticos que em cerca de trinta anos fizeram de Portugal um país sem futuro. Certamente que sair enquanto é tempo é a solução mais acertada e, por isso agradeço os vossos conselhos. Por muito que eu viva, fica a certeza de que não serão esquecidos.

Do fazer as malas

De tanto a minha mãe falar disso - e não te esqueças de levar aquilo, e vais levar isto? - tive de me render e começar a dedicar-me à missão impossível de enfiar vinte e três anos de vida numa mala de setenta e um centímetros que pode pesar no máximo vinte quilos.

Ora, quem me conhece sabe que, apesar de ser uma gaija assim descontraída no que toca a vestuário e moda e coisas afins, não me contento com dois pares de sapatos e meia dúzia de blusas.Além disso, por cá e à custa de invernos pouco sisudos, não gosto assim muito de casacos grossos, botas ou polares, itens essenciais para quem vai viver para Londres!

Do básico e de cabeça, sei que tenho de levar: um par de botas, umas sapatilhas, dois e três sabrinas, calças, camisolas, blusas, casacos, roupa interior, malas, lenços, acessórios, pijamas, toalhas de banho, artigos de higiene maquilhagem, adaptadores eléctricos, pc portátil, máquina fotográfica, fotos e sei lá mais o quê, que a minha mãe fará questão de me lembrar quando estiver a fazer a mala!


Ah, e tenho de marcar também uma viagem a Portugal para Maio para vir buscar tudo o resto, senão corro o risco de ter de empenhar o carro para pagar o excesso de bagagem!

segunda-feira, 12 de março de 2012

Definitivo.

Desde que aceitei a proposta de trabalho que me foi feita por um hospital londrino de renome que sabia que ia chegar o dia em que deixaria a minha casa, a minha família, os meus amigos, o sítio onde nasci e cresci e partiria para uma nova aventura, a maior de sempre, a mais difícil, a mais corajosa, mas também também provavelmente a mais compensadora de todas.
Contudo, ainda estava o mês de Janeiro quase no início quando assinei o papel que mudaria a minha vida. Começaram então os primeiros preparativos: a documentação, a papelada, o contrato, a mala. E a minha cabeça divagava entre esses assuntos sem ter tomado consciência da seriedade do assunto. 

Hoje foi o dia definitivo, aquele em que por muitas indecisões, por muitas dúvidas, já não há volta atrás. A inscrição na NMC está concluída, o voo está marcado, a offer job letter assinada e menos de duas semanas para se cumprir mais uma etapa do destino: Londres.