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sexta-feira, 23 de março de 2012

Da greve de 22 de Março de 2012

Concordo com o ideal grevista em si. É uma forma de o cidadão comum protestar contra o que está errado, contra o sistema, contra a desigualdade. É válida, está prevista na lei e não nos esqueçamos dos combates travados para que tivéssemos direito a um direito. Contudo, não concordo com a greve porque sim. Primeiro, porque não é neste momento forma de ajudar o país (e neste momento não estou propriamente imbuída de sentimentos patrióticos) e depois porque esta greve - e a maioria delas, encetadas pelos sindicatos - é mais uma que apenas serve os propósitos de alguns, protegidos pelo próprio sistema que dizem lutar contra. Ainda assim, respeito quem faz uso de um direito que é seu: o de fazer greve. O que não compreendo, mais o que desprezo é o comportamento da PSP perante indignados, tendo-se tornado cada vez mais frequente e mais gravoso quanto mais manifestações se fazem.

O que se assistiu ontem em Lisboa, foi uma selvagaria cometida por cães que morderam os verdadeiros donos. Atacaram selvaticamente, em matilha, protegidos, batendo em tudo e em todos. Houve sangue e provas do abuso - afinal, vivemos numa geração que vive à distância do clique. A frio, tentando explicar tamanha violência, dizem que os jornalistas se devem identificar e colocar sempre do lado da barreira policial, sob o risco de serem também eles agredidos. Seria, então, plenamente aceite uma tentativa de agressão a uma simples cidadã que fotografasse um acontecimento público.

As imagens do que vi ontem, pensei eu, identificariam um qualquer país do mundo onde a democracia ainda não foi implantada e onde se sentem ventos de primavera. Mas não, foi em Portugal, em Lisboa, no coração de um país civilizado e que se leva em pinças para não fragilizar opiniões estrangeiras. O que aconteceu foi simples: a PSP, escondida por trás de um sentimento de impunidade, de quem tudo pode e faz sem consequências, mostrou-se mais uma vez inculta no que toca ao civismo e não soube lidar com a situação de outra forma, que a não ser a lei da bastonada perante uma multidão indefesa.

Queixem-se depois que lhes falta papel, tintas, carros e que pagam as fardas, que o povinho, que vos paga essas mesmas merdas e a quem a PSP devia proteger, ao invés de agredir, vai ficar solidário com as vossas misérias. Mas não se julgue esta prepotência de hoje ou de agora. Não se encare a brutalidade da polícia como um resquício da crise. Apenas poderá ficar surpreendido com esta reacção quem nunca foi à bola.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Das mentes iluminadas que aparecem na TV

Se antes a televisão era um elemento pouco utilizado por mim cá em casa, desde que estou between jobs, vejo muito mais televisão do que anteriormente, porque o tempo custa a passar quando não se tem nada que fazer ou, melhor dizendo, quando não nos apetece fazer as mil e uma coisas que temos pendentes. Hoje de manhã, depois de ter voltado com a minha mãe de uma consulta no Hospital de Santo António, liguei a televisão e, na TVI - porque ainda vejo essas coisas senhor, porquê? - estava a falar um psicólogo que não me lembro o nome, defendendo a teoria que as gerações actuais deveriam tratar os pais por você, porque tratar por tu é uma forma de desrespeito.

Vamos lá então: compreendo que os que agora são pais tratem os seus próprios pais por você. A educação era diferente, as gerações também. Compreendo até que alguns pais de agora queiram que os filhos os tratem por você, afinal ser pai e mãe também são papéis e comportamentos aprendidos por observação social e, se eles foram educados assim enquanto crianças, é normal que exijam o mesmo aos filhos.
Agora apontar este facto como uma forma de desrespeito, supostamente sustentado num artigo científico que não foi apresentado e cujos resultados desconheço, é meter a colher em educação alheia, é fomentar crendices e parece-me apenas quadradice cognitiva. Curto e grosso e em bom português, pareceu-me o típico caga tacos, figura tão típica do panorama televisivo português

Se existem problemas de educação nas famílias actuais? Claro que existem. O mercado laboral tornou-se num mundo selvático, onde apenas sobrevivem os melhores e os mais empenhados, o que retira disponibilidade e tempo que podia e devia ser dedicado à família. A crise financeira arrasa actualmente as família, porque como dizem todos ralham, e ninguém tem razão, gerando ela própria uma crise de valores. O próprio modelo de família, onde os pais são a figura de autoridade, desvaneceu-se, porque é cool ser amigo do filho e não o educador que se deve ser. Mas isto não pode nem deve ser generalizado a toda uma geração de pais e filhos e muito menos o respeito pode ser reduzido ao uso de uma terminologia verbal.

Na minha humilde opinião, não acho que venha mal ao mundo que os pais e filhos se tratem por você ou por tu. Depende de cada dinâmica familiar, da educação que os pais tiveram e da abertura que têm com os filhos. Na minha família, todos se tratam por tu. Da avó de 78 anos, que é a mais velha, ao neto mais novo, que tem dois anos. Tios, sobrinhos, avós, primos, todos nos tratámos por tu e, se a diferença de idade não for muita, pelo nome próprio. Pelos vistos, somos todos uns mal-educados, marginais a ser tidos em conta. 



quarta-feira, 14 de março de 2012

Carta aberta do Sr. Primeiro Ministro

Exmo. Sr. Primeiro Ministro Passos Coelho e, já agora, Exmo. Sr. Secretário de Estado do Desporto e da Juventude Alexandre Mestre,

Ou outros tantos nomes conhecidos da nossa praça pública a quem pode ser endereçada esta humilde carta aberta.

Começo por apresentar-me, tal como me diz a boa-educação que os meus pais sempre me incutiram. O meu nome é Andreia Soares, tenho vinte e três anos e nasci em Gondomar, perto do Porto. Sou filha única de uma família de classe média - daquelas que trabalham arduamente, pagam as suas contas, poupam dinheiro durante o ano para uma extravagância e que hoje os senhores teimam em dizimar com impostos -, filha de pais trabalhadores em que tudo o que conseguiram na vida foi fruto de muitas horas de trabalho árduo, daquele que massacra o corpo e cansa a alma. Certamente, não saberão do que estou eu para aqui a falar.

Na escola, sempre fui boa aluna e correspondi às expectativas que todos iam criando para mim. Conclui o ensino secundário com uma média de 18,1 valores e, em Setembro de 2006, então com dezassete anos, entrei na Escola Superior de Enfermagem do Porto com uma média de 17,9 valores, tendo como específicas Biologia e Química. Escolhi o meu curso de forma consciente: para além de ser aquele que mais me entusiasmava, li estudos acerca da sua importância no futuro, sustentados em argumentos como a demografia da população portuguesa, o drama do envelhecimento e as questões da morbilidade aumentada, da dotação dos hospitais e dos serviços de saúde bem como da necessidade de cuidados. Falei com enfermeiros, procurei saber qual o melhor curriculum escolar e fiz a minha escolha, ciente de que foi acertada.

Terminei o meu curso em Julho de 2010, com média de dezasseis valores. Apesar de tudo, aproveitei bem os meus anos de estudante. Contrabalançando tudo, consegui ser boémia e responsável ao mesmo tempo: sai, namorei, vivi, cometi excessos mas acabei o curso no tempo previsto, com boas notas, sem nunca ter deixado uma cadeira para trás, num CLE onde apenas três alunos conseguiram uma média melhor que a minha. Afinal estudar era a minha profissão e não podia falhar perante uns pais que me ofereceram esta oportunidade sem exigirem mais do que empenho e competência.

Uns meses depois de ter terminado o curso, conquistei o meu primeiro emprego. Precário, como quase todos os que são oferecidos por estes dias. Mal pago, mas exigente. Trabalhei e dei tudo de mim, mas nada disso me valeu o prolongamento do vínculo profissional. Não me rendi, continuei a procurar e, enquanto não   recebia nenhuma resposta positiva na minha área, trabalhei como operadora de call-center. Não baixei os braços, não me envergonhei e continuei a trabalhar no que ia aparecendo e a poupar o máximo que conseguia. Um tempo depois, após entregar tantos currículos que lhes perdi a conta e receber meia dúzia de respostas, sempre negativas, consegui um novo emprego na minha área. Desta vez, a proposta era melhorzinha, mas as perspectivas as mesmas: um emprego rotineiro, que não me permitia crescer, em que tinha de seguir regras que sabia profundamente erradas e dizer sempre que sim sob pena que a porta fosse a serventia da casa.

Pelo meio, paguei do mesmo bolso congressos, seminários e formações, o CAP, workshops ou tudo aquilo que me parecesse ter interesse ou utilidade. Participei num projecto de investigação na faculdade, onde eu e outra colega minha, licenciada no mesmo ano, éramos as únicas sem remuneração. Guardei para depois o sonho de uma pós-graduação em cuidados paliativos não fosse o diabo tecê-las, o emprego ir pelo cano abaixo e deixar eu os meus pais a braços com uma prestação referente à minha educação.

Ainda assim, sinto-me grata pelas experiências que tive e pelas oportunidades que me deram e que abandonei recentemente, cansada e frustrada, em troca de outra proposta mais aliciante. Uma proposta fantástica, que me dará condições para evoluir, que me permitirá a tão desejada independência financeira mas que me pede em troca o coração e a pátria. Inicio dia 29 de Março de 2012 funções como enfermeira no Whipps Cross University Hospital em Stratford, Londres.

Não pensem Sr. Ministro e Sr. Secretário de Estado que emigrar é um processo tão fácil e leviano como as palavras que saíram das vossas bocas quando mandaram os jovens emigrar, muito pelo contrário. Ainda que façamos de conta que não existe penosidade mental e emocional num processo de emigração, ainda não podia sequer candidatar-me a um emprego quando já tinha gasto grande parte do dinheiro que tão custosamente tinha amealhado. Entre documentos, traduções, certificações, fotocópias, notários, CTT e inscrição na Nursing and Midwifery Council foram-se mais de quinhentos euros. Depois, as exigências burocráticas, algumas incompreensíveis entre dois países da UE, como o passaporte, pagos a peso de ouro. E tudo isto é um processo solitário, demasiadamente até para quem possua fracos recursos.
E não se pense que termina por aqui. Depois da entrevista, da proposta e do contrato assinado, sobram as despesas da viagem, do alojamento, da alimentação, de um mês inteiro num país estrangeiro, a contar com a ajuda de familiares esforçados, à espera da tão ansiada independência financeira. Tantas vezes pensei o quão sortuda sou por ter uma família que, ainda que com algum custo, me pode apoiar e ajudar a procurar uma vida melhor, já que, nestas condições, sem ninguém que os ajude e apoie, muitos não o poderão fazer.


Senhor Primeiro-Ministro e Senhor Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, acabo aqui a minha resenha pessoal. Aos vinte e três anos, na expectativa de ter uma vida melhor, de conseguir exercer a actividade profissional para a qual fui treinada, cansada de lutar contra a maré, contra um regime corrupto e a cair de velho, vou-me embora, na certeza de que, por muito que o meu coração o peça, dificilmente voltarei para o meu país. Um país que apoia compadrios, sustenta os corruptos e maltrata os seus melhores, tratando-os como leprosos que têm de ser afastados. Talvez tudo tivesse sido mais fácil se ainda pequena me tivesse inscrito numa qualquer juventude, formatada ao som de uma doutrina podre e que leva invariavelmente ao mesmo caminho. Talvez fosse fácil se tivesse pais ricos ou uma cunha jeitosa. Talvez assim Portugal fosse a minha zona de conforto.

Mas não é nada assim. Sinto-me escorraçada do meu país, tratada como excedente, como alguém que não vale a pena. Sou forçada a abandonar o sítio onde cresci, a pôr em espera as amizades que fui criando e a partir, amputada de parte da minha vida e de todas as referências que criei. Vou triste e até um pouco amargurada, mas sei esses sentimentos serão vento de pouca dura quando vir reconhecido o meu trabalho. Portugal apenas poderá contar comigo nas férias e para renovar documentos. Quando eu tiver condições, os meus pais se reformarem e se o quiserem, farei questão de os levar comigo para viverem lá. Para com Portugal não terei nenhuma misericórdia e não contribuirei com mais um cêntimo sequer para este país acorrentado a uma classe política incompetente e inútil, que assiste impávido e sereno à sangria dos seus jovens e que quer levantar-se apoiado nas mesmas muletas que o fizeram cair e partir as duas pernas.

Obrigada Sr. Passos Coelho. Obrigada Sr. Secretário de Estado. Obrigada a quase três gerações de políticos que em cerca de trinta anos fizeram de Portugal um país sem futuro. Certamente que sair enquanto é tempo é a solução mais acertada e, por isso agradeço os vossos conselhos. Por muito que eu viva, fica a certeza de que não serão esquecidos.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Definitivo.

Desde que aceitei a proposta de trabalho que me foi feita por um hospital londrino de renome que sabia que ia chegar o dia em que deixaria a minha casa, a minha família, os meus amigos, o sítio onde nasci e cresci e partiria para uma nova aventura, a maior de sempre, a mais difícil, a mais corajosa, mas também também provavelmente a mais compensadora de todas.
Contudo, ainda estava o mês de Janeiro quase no início quando assinei o papel que mudaria a minha vida. Começaram então os primeiros preparativos: a documentação, a papelada, o contrato, a mala. E a minha cabeça divagava entre esses assuntos sem ter tomado consciência da seriedade do assunto. 

Hoje foi o dia definitivo, aquele em que por muitas indecisões, por muitas dúvidas, já não há volta atrás. A inscrição na NMC está concluída, o voo está marcado, a offer job letter assinada e menos de duas semanas para se cumprir mais uma etapa do destino: Londres.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Antecipação


Tomada que está talvez a decisão mais importante da minha vida, sendo eu feita para pensar, repensar, dormir sobre o assunto, pensar e voltar novamente a debruçar-me sobre as questões, chega a altura de sofrer por antecipação. De consciência, sei que ainda faltam alguns meses até que se concretize a mudança definitiva, sei que até lá ainda chegará um calvário de burocracia e algumas lágrimas ainda vão rolar, sei que a distância espacial e temporal não me permitirá ver o bom da mudança e apenas ressaltará a minha vontade de voltar atrás.

Antecipar a distância faz-me perceber uma coisa que até hoje nunca tinha percebido: as saudades são tramadas. Sei que vou ter saudades da minha mãe, de tudo o que ela me faz e que eu não valorizo, das chamadas aborrecidas mas que vão fazer tanta falta. Sei que vou ter saudades do meu pai, o pai herói que tudo faz para me agradar, que sei que me adora, que me vê como a sua pequenina e de quem sei que levarei comigo o seu coração. Sei que terei saudades da família, dos meus avós, dos meus tios, dos meus primos, dos almoços e jantaradas, das datas festivas e do amor que tantas vezes não se diz mas sente-se. Sei que terei saudades dos meus amigos, das conversas, das saídas, dos segredos e cumplicidades, da dedicação, das bebedeiras e das loucuras, das ternuras. Sei que terei saudades da minha cidade, de conduzir pelo trânsito da VCI, de ir ao Norteshopping, ao Piolho, de ver a bola no Dragão.

Conclusão: não podemos ter tudo, é uma inevitabilidade. A vida é tramada!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Liberdade

Há mais de quarenta anos, para ser precisa há quarenta e dois anos, Portugal vivia mergulhado num regime fascista. A insatisfação era geral e, inspirados por ventos franceses, a academia, os seus docentes e os seus alunos começavam a demonstrar alguns desconforto. A falta de liberdade, de valores, a pobreza gritante do país e a podridão de espírito trazida pela guerra nas colónias eram assuntos que ocupavam o pensamento daqueles que usavam capa e batina.
Até que em Abril de 69, Alberto Martins, presidente da Associação Académica de Coimbra pede a palavra ao presidente Américo Tomás: "Posso usar da palavra?", pedido que lhe foi negado, tendo sido preso no dia seguinte. Acendeu-se assim o rastilho de uma das maiores manifestações de indignação e de repressão, que apenas serviram para reforçar a unidade estudantil.

Quarenta anos passaram e tanto mudou. Por aqueles que lutaram na altura, agora temos direito à palavra, à indignação, ao conhecimento e à liberdade. Tomámos como nossos os seus hinos, até sabemos entoá-los. Temos orgulho em ser a geração com  mais conhecimentos, com mais formação.Na realidade, seremos a primeira geração a viver pior do que os pais, a geração dos quinhentos euros, da precariedade, da emigração e do futuro adiado. 

Mas em nós falta a coragem para lutar. Falta a coragem para de capa e batina pormos em causa a vida confortável que ainda levamos e sairmos do marasmo em que vivemos, eternamente ludibriados pelo ideal capitalista, que tudo promete e nada dá. Passados quarenta anos, é altura de lutarmos com as mesmas armas, com orgulho no nosso passado e fazendo da nossa capa negra um hino de liberdade.




terça-feira, 28 de junho de 2011

Daquelas coisas que me transtornam

"O Hospital de Sto. António reservou uma sala para amigos e familiar do cantor e actor" JN Online

Infelizmente, por motivos profissionais, já vi muita gente morrer. E em alguns momentos, fiquei sem saber o que dizer quando o familiar autorizado a acompanhar o doente, entre lágrimas e dor, depois de muitos dias ou até semanas a viver no hospital, a dormir num cadeirão, a sobreviver no mais básico das suas necessidades, observado por todos na pouca privacidade de uma enfermaria, me contava da partida eminente do seu ente querido.

Nós, os enfermeiros daquele serviço, oferecíamos o que podíamos dar. Uma garrafa de água, um cadeirão, uma coberta nas noites mais frias, um ombro onde desabafar ou um momento de descanso 'vá descansar que eu fico com o seu familiar' quase sempre negado na ansiedade de que o enfermeiro fosse o único a segurar a mão do seu familiar quando a vida findasse. Nunca, em momento algum, pude oferecer um quarto mais resguardado onde pudesse chorar, aguardar as notícias, tomar decisões tão difíceis na companhia de pessoas significativas para si.

E nesse momento de terrível verdade, nada importa quantas pessoas o conhecem ou quanto dinheiro tem. 
A importância que se dá a uma vida e a um luto deveria ser igual para todos. 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Afugentar abutres no caminho da vitória

Ouvem-se muitos velhos do Restelo auspiciar maus augúrios, derrotas e tragédias para os andrades. Falam com pesar da perda de continuidade, fazendo crer que se preocupam com um futuro pouco risonho para o FC Porto. Dizem que Pinto da Costa foi apanhado na curva e que, desta vez, terá dificuldade em recompor-se. 

Os cães ladram e a caravana azul passa. E os abutres esperam mais uma vez, enraivecidos. Porque o caminho que eles fazem agora, Pinto da Costa já foi e já veio. Várias vezes. Trezentos e dezanove minutos depois, assume um novo nome: Vítor Pereira. Claramente pensado, planeado, oportuno. Um treinador que, antes de Villas-Boas ter sido campeão pelo FC Porto, já o era. Razões de preocupação? Nenhumas!

O FC Porto, na figura do seu presidente, mostrou ser competente e eficaz, seguro numa estrutura de pessoas, valores e princípios devidamente resguardos entre os portistas. E Vítor Pereira é uma dessas pessoas. Dono de um profissionalismo conhecido, capaz e conhecedor de futebol, é igualmente conhecedor dos cantos à casa e tem os ingredientes que, no FC Porto, fazem campeões. E é por isso que Vítor Pereira faz todo o sentido.



[Por isso mesmo sosseguem lá a passareca lampiões e lagartos. Guardem bem a vossa prata da casa, Jesus e Domingos Paciência, que nós cá nos entretemos a ganhar títulos e a vender treinadores por preços que vocês não conseguem vender os vossos jogadores!] 

O prometido é devido


André Villas Boas chegou ao FC Porto como desconhecido para a maioria, conhecido como o adjunto de Mourinho por quem gosta e acompanha o futebol. Chegaram depois notícias que era adepto desde pequeno, que interpelou Robson quando este era treinador do FC Porto e lhe perguntou porque não punha o Domingos a jogar e que foi aí, debaixo da asa de um treinador campeão no FC Porto, que começou os seus voos, na altura rasantes. E digo rasantes, porque voos altos alcançou-os na época de 2010/2011, numa aposta ganha de Pinto da Costa, quando ganhou tudo o que tinha a ganhar no FC Porto, mais concretamente a Supertaça Nacional, o campeonato nacional, a Taça de Portugal e (a grande conquista!) a Liga Europa. Além de tudo isso, o FC Porto que teve como timoneiro André Villas-Boas deu-nos, a todos os portistas, recordações incríveis: os 5 a 0 no Dragão ao rival de Lisboa, a reviravolta na Luz, as goleadas, o campeonato invicto. André Villas-Boas tornou-se um herói na nação portista. Não apenas porque ganhou, mas porque era portista, daqueles de coração. Disse que não queria sair, que este era o seu emprego de sonho e, assim, conquistou um lugar no coração dos portistas, no meu também.

E por isso, foi com enorme incredulidade que vi, na segunda-feira, a notícia que André Villas-Boas poderia ter assinado pelo Chelsea. Primeiro não acreditei, mais um jornaleco de Lisboa a encanzinar a pré-época. Depois ignorei, quando o FC Porto emitiu o primeiro comunicado. Depois, enfureci-me. E a seguir racionalizei. Mas, no fim, desiludi-me profundamente.
Enfureci-me porque não se fazem promessas das quais não se tem intenção de cumprir. Enfureci-me, como sempre o faço quando nos prometem o mundo, embora saibam que não estão dispostos a conquistá-lo connosco. Enfureci-me porque não gosto que me mintam e muito menos suporto as incoerências.
Depois racionalizei. Foi um negócio e tanto, para o FC Porto e para o André Villas-Boas, principalmente quando já não estamos nos tempos das vacas gordas nem no futebol. Quinze milhões são um poderoso encaixe que estarão disponíveis para comprar novos reforços ou para solidificar o plantel já existente, mantendo assim alguns dos jogadores-chave. Para André Villas-Boas, o quíntuplo do que ganhava até agora anualmente. Para o FC Porto, agora é tempo de trabalho, verificar os danos, corrigi-los e iniciar a próxima época.

Mas, no final de tudo, resta-me uma enorme desilusão. Apesar de racionalmente ter de compreender a decisão, o meu coração de portista não pode deixar de se sentir traído, porque um portista não dá o dito por não dito. Um portista não sente uma paixoneta de verão pelo clube, ama-o até ao fim. Para mim, André Villas-Boas era alguém que, como eu, como o meu pai, sofria cada derrota, festejava cada golo, ansiava cada vitória e sentia o FC Porto como o seu clube. Acreditava inocentemente que, como eu ou o meu pai, seria capaz de treinar o FC Porto a custo zero se isso se impusesse. Mais, acreditava no compromisso que tinha anunciado, porque acredito que um Homem não deve faltar à sua palavra. Villas-Boas tinha tudo para sair pela porta grande, como um herói, aclamado por todos, adorado por todos os como ele, portistas. Poderia sair ainda este ano, poderia sair agora ou até depois, desde que não prometesse algo que não tinha a intenção de cumprir. Poderia, tal como eu lhe poderia desejar a melhor das sortes, uma carreira cheia de sucesso e que seja feliz profissionalmente. Mas, pelo coração morre este portista. Pelo menos para mim.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Inevitabilidade do destino

Costuma dizer-se que o destino é coisa que não se pode mudar, está escrito algures quando nascemos e ninguém consegue alterar a ordem natural estabelecida pelo Universo para cada um de nós. É uma coisa inevitável, tal como parecia ser a inevitabilidade da eliminação da Taça de Portugal, augurada pela derrota por 2 a 0 do FC Porto, na sua própria casa.

Afinal, ontem percebi que há forças maiores que o destino. A vontade, a garra, a força, o desejo, a motivação, o querer, a perseverança, a crença, o ser que faz um campeão. Parabéns (meu) FC Porto!

sexta-feira, 25 de março de 2011

Kleben Sie Ihre Nase*

[foto tirada no protesto da Manifestação Geração à Rasca, de 12 de Março]

A Sra. Dona Angela Merkel falou hoje ontem publicamente sobre o Parlamento Português, lamentando que estes tivessem feito o que era de sua competência e se tivessem pronunciado negativamente sobre as medidas de um governo minoritário. Ora, Senhorita Merkel acabou de pisar uma linha ténue ao criticar o parlamento português, metendo o bedelho onde não é chamada* [pois, caros socialistas isto não foi um elogio ao nosso primeiro-ministro demissionário, fica-lhe bem esta expressão].

A chanceler alemã tem todo o direito de criticar o governo português por faltar aos seus compromissos, depois de apresentado o plano falhado no Conselho Europeu. Tem o direito de criticar o lamaçal em que Portugal vive no momento, tem o direito de se preocupar com a sua Alemanha e de liderar o seu parlamento. Mas em Portugal a senhora não ganhou eleições. Nenhum português votou nela. Mas todos os nossos políticos já se vergaram à sua influência, porque enquanto uns se gladiam com a situação vendo-a como palavras de apoio, os outros amedrontam-se, sem coragem para lhe dizer que "em Portugal mandam os portugueses".

quarta-feira, 16 de março de 2011

Pimenta na língua

Começou quando surgiu um diploma de licenciatura assinado num domingo, de um aluno a aguardar quatro notas que, coincidência das coincidências, foram lançadas igualmente no mesmo domingo, assim enquanto o padre rezava a missa e se via o futebol. Depois, ficou mais criativo e disse que fazia trabalhos pro bono quando aparecem registos de deduções no fisco. E como uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade, o país acreditou.

Seguiu-se uma campanha eleitoral, onde prometeu mundos e fundos. Das suas promessas eleitorais, disse criar 150 mil postos de trabalho (serão tantos os números de tachos dos militantes socialistas?), criar empresas, aumentar os funcionários públicos acima da inflação. Criticou veemente a introdução de portagens nas SCUTS e prometeu que, em quatro anos, iria acabar com a pobreza. Inocentemente, foi eleito.

No poleiro, as mentiras aumentaram em proporção com os seus enganos e as suas gafes. Apontou a falha na avaliação dos professores, esquecendo porventura o facto de que foi ele a acabar com as que permitiam progressão na carreira. Apanhado a fumar num avião, após aprovar uma lei que proibia o fumo em espaços fechados, desculpou-se dizendo não estar ao corrente da lei. Enalteceu que o Magalhães era um produto made in Portugal e iniciou uma distribuição pelas escolas, em que os computadores eram ofertados e recolhidos após a fotografia (a minha avó costuma dizer que quem dá e tira ao inferno vai parar). Mentiu, desmentiu, mentiu, desmentiu sobre as SCUTS e depois envio um lacaio para fazer o seu trabalho sujo, anunciá-las. Dos aumentos prometidos para a função pública, inverteu-lhes o sentido e o resultado foram cortes muito penalizadores para os trabalhadores. Em altura de Festas, apresentou-se como o Pai Natal de Portugal e disse que a prenda este ano seria o preço mais baixo dos combustíveis, tudo responsabilidade da sua capacidade de negociação, facto que "Cometa" Silva Perereira e "Rudolfo" Teixeira dos Santos se apressaram a confirmar. E provavelmente há mais situações que a minha memória, finita em capacidade, não consegue suster.

Talvez na campanha eleitoral que se avizinha tão provável como o FMI, à qual já prometeu recandidatar-se, diga que foi ele que inventou a roda, que geriu o fim da Guerra do Iraque e que está a ser realizado um inquérito para avaliar se foi ele quem criou o Universo ou não.

Hoje, mais uma no role imenso: depois de anunciar em Fevereiro a descida do preço dos medicamentos em Abril, vem dizer que afinal já não vai baixar o preço dos medicamentos, acrescentando ainda a Ministra Ana Jorge, com um descaramento político daqueles que já não se viam desde a ditadura, que se os portugueses estão numa situação insustentável, então mais um roubo também não irá fazer diferença nenhuma.


O Sócrates tem sido um menino muito mal-comportado, sem dúvida. Com tanta mentira, se o Sócrates morasse cá em casa, aposto que a minha mãe já lhe tinha posto pimenta na língua.

Da agressão

Portugal, apesar de às vezes parecer uma autêntica república das bananas, ainda é um estado de direito. Ora, num estado de direito, um individuo ou uma instituição têm o direito a ver preservada a sua imagem, a sua reputação e a sua dignidade. Para manter essa legalidade, existem crimes como difamação, punível por lei em Portugal. Desculpando-me por ser leiga no assunto, creio que o crime de difamação consiste na ofensa à honra de alguém através da atribuição de um facto a alguma pessoa, sob a forma de suspeita ou de um juízo.

O vice-presidente do Benfica, Rui Gomes da Silva, veio queixar-se que foi agredido quando saía do Restaurante Shis no Porto, onde curiosamente o treinador do Porto jantava. A isso, juntou as insinuações de que o André Villas-Boas poderia ter contactado alguns membros dos SuperDragões para lhe limparem o sebo. Numa situação normal, sendo alguém agredido à saída de um restaurante por gente que até consegue identificar, o passo seguinte seria apresentar-se na polícia e, posteriormente, numa instituição hospitalar para documentação de agressão física e então apresentar queixa contra os agressores. Nada disso se verificou nesta situação.

Porque se calhar até nem dá jeito que seja investigado o que não se passou. Porque se calhar é mais do mesmo, um apontar de dedo sem que nunca se verifique consequências para nenhum dos lados mas gerador de um entretenimento suficiente que permita afastar as atenções dos resultados vergonhosos do Benfica na Liga Portuguesa.  E porque no meu país difamação é crime, se fosse comigo já estavam a levar com um belo de um processo judicial em cima!


Cartoon por HenriCartoon, daqui

Ninguém diria, a sério...

(clicar na imagem para visualizar em melhor qualidade)

O monólogo do PM

Sentei-me à frente da televisão, afinal a minha mãe disse-me que o Primeiro-Mentiroso ia falar outra vez ao País. Vá de ouvir o que o Sr. Sócrates tem a dizer, já que ontem o troquei a meio pelo jogo do FC Porto. A verdade é que não perdi nada e o grilo, hoje, volto a repetir o que ouvi ontem em meia entrevista.

A saber-se: o PSD não quer brincar mais com ele; graças a deus que os jovens não lhe botaram fogo à casa nem lhe furaram os pneus do carro no sábado; ele é o melhor primeiro-ministro que portugal já teve, veja-se o défice; o Sócrates foi convidado para ser de um partido da oposição na Irlanda (ai que o teu mal faz-me tão bem...); este quarto PEC é mesmo o último, escrito para já; depois dele, é o inferno em cuecas; ele demite-se no dia da votação do PEC IV, porque não é "agarrado ao poder?"; vamos ter de levar com ele em mais uma campanha eleitoral.

Cartoon por HenriCartoon, daqui

terça-feira, 15 de março de 2011

Venha o diabo e escolha

No domingo, estávamos todos à mesa, em mais um almoço de família, quando alguém reparou que o mais novo estava a esconder os legumes debaixo do prato para evitar comê-los. O ralhete veio rápido e eficaz, como costume. E o pequeno, usando as suas já elaboradas estratégias de chantagem, disse algo como "Tu é que sabes, posso comer a carne e a sobremesa todo satisfeito ou vomitar se me obrigares a comer os bróculos", traduzido para linguagem de um miúdo de quatro anos.

Ontem o nosso Primeiro Ministro, o Sr. Sócrates fez o mesmo. "Ou eu ou o FMI", acompanhado por um discurso patriótico, cheio de emoção, um ensaio para a campanha junto do povo sendo isso tão útil como distribuir canetas do PS no Mercado do Bolhão. Fazer essa afirmação é obrigar os portugueses a escolher entre sobreviver com um camelo e viver na merda, esperando uma saída airosa com o PS a perder com mais votos.

Cá por mim, já aprendi a lição: a merda ainda pode ser estrume, mas um camelo nunca se tornará água.

Geração à rasca




Chego tarde e a más horas com o comentário à manifestação da geração à rasca de dia 12. Tal e qual como esta manifestação chegou, tarde. Eu fui à manifestação de sábado, acompanhada da minha mãe e alguns amigos que ou estão na mesma situação que eu ou se preparam para emigrar. Fui, sou a favor dela e gostei de lá ter estado.
O que se passou no sábado foi resposta suficiente a todos os que no pré-manifestação nos criticavam porque  contra factos não há argumentos e 300 000 pessoas não podem ser um bando de rascas que decidiu fazer os santos em Março. Convenceu a todos, menos aos idiotas. Porque um idiota será sempre um idiota. E certos comentadores serão sempre idiotas. Porque são incapazes de ver que o que se passou foi um basta, foi um desabafo colectivo de 300 000 portugueses que saíram à rua e disseram bem alto 'foda-se a merda que nos governa, chega!', ainda que lhes faltassem soluções para o problema. Mas arrogo-me a dizer que nem as têm de ter, afinal não é ao povo que pagam para ser políticos. Competência, ora aqui está a solução.

Eu nunca fui boa aluna a matemática.

O que sei sobre golfe é muito pouco. Geralmente, associo-lhe a imagem de um empresário rico que bate umas bolas pela janela do escritório enquanto despede meia dúzia de funcionários ou um grupo de políticos reformados que se encontram em amenas cavaqueiras nos campos de golfe. Estereótipos não são mito e, face às medidas anunciadas pelo Governo, fui procurar!

Então vejamos: cerca de 1 milhão de viagens são realizadas todos os anos para jogar golfe. Nessas viagens, o gasto médio de cada pessoa que pratica golfe é de 260€ diários, sendo que pode variar entre 100 a 600€, tendo em conta a categoria do campo de golfe e o grau de sofisticação dos serviços. Quem costuma realizar estas viagens são maioritariamente homens com mais de 40 anos, de nível socio-económico alto. Utilizam avião para chegar ao destino e lá usam carros alugados. Dormem em hotéis de 4 e 5 estrelas. Repetem esta actividade entre uma a três vezes ao ano. As empresas que gerem os campos de golfe em Portugal geram por ano cerca de 350 milhões de euros, tendo uma taxa de crescimento de 16% ano. 
Todas estas informações foram retiradas daqui
Agora, o Governo decidiu que o IVA desta actividade iria ser 6%.

Em Portugal, no ano corrente, produtos como o leite, os sumos, os alimentos de conserva, as geleias, o peixe e a fruta não transformados têm IVA de 23%. Sr. Ministro Teixeira dos Santos, explique-me lá isto como se eu fosse muito burra. É que sabe, eu nunca fui muito boa aluna a matemática. E segundo parece o Sr. Ministro também não.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Das mulheres do XXI i


Qualquer conversa mais do que circunstancial entre a minha avó, a minha mãe e as minhas tias, ronda inevitavelmente os cozinhados, as lides domésticas e se a roupa está seca ou encharcada na bacia. E é com orgulho que apresentam a sobremesa favorita no almoço de domingo, que se gabam da roupa estar seca, passada a ferro e já arrumada no armário. Ou que lamentam o tempo, que molha e suja tudo. 

A mim, espécime único do género feminino na minha geração familiar, fica-me bem dizer que não sei cozinhar, que os botões da máquina de lavar são indecifrável e que economia doméstica é coisa disso mesmo, doméstica . Porque eu, no auge da minha juventude do século XXI, que visto Lanvin (ainda que comprado na H&M), que calço Loubotin que ai-jesus-nossa-senhora-não-podem-custar-menos-de-trezentos-euros, que leio livros (livros, a sério?) no Ipad e só comunico através do Iphone, sou uma mulher moderna, profissional e super actual, que debita marcas de luxo e, das duas uma, ou idolatro ou odeio a Margarida Rebelo Pinto.

Mas eu, de feitio difícil e gostando tanto de contrariar, digo que essas mulher modernas e actuais não passam de umas saloias que, com um orgulho idiota, assumem uma grande incapacidade. A minha avózinha pode não saber quem é o José Luís Peixoto, porque é que existem os óscares ou o que significa bimby mas em casa dela não é preciso ligar o Iphone e ligar ao take-away e não se gastam balúrdios em contas de lavandaria. À parte disto tudo, ainda brinca com o neto mais novo, ralha com o do meio e gosta de conversar com a única menina, faz renda como ninguém e passeia que se farta com o avô.

Ah, esqueci-me. Ela alimenta-se, veste-se e limpa-se. E tudo isto sozinha.