terça-feira, 22 de maio de 2012

Da que agora é a minha casa

A minha casa em Londres não é a casa da minha vida. Nem é a casa que sonhei ter quando vim para Londres. Mas é a minha casa. E as pessoas que vivem nela comigo já são um pouco a minha família. Porque já sabem tudo da minha vida e já começam a conhecer, ainda que ao de leve, os meus sonhos. E é por isto que nem a minha casa nem a família que tenho aqui merecem que me esqueçam deles. 

E um dia, quando morar na casa dos meus sonhos, com a família que me encha o coração e me ocupe por completo o coração, terei sempre na Poland House a doce recordação de onde comecei a minha vida. Por que não se esquece quem nos embala os sonos e nos acalenta os sonhos.

Dos dias em Portugal

Resumindo tudo numa conclusão simples: se algum dia tiver uma filha que seja igual a mim, vou arranjar uma carga de trabalhos. Ou então interno-a num colégio de freiras e está tudo arrumado.

domingo, 29 de abril de 2012

Do meu serviço de cardiologia

Cardiologia não é a minha área favorita para trabalhar. Já o sabia antes de me ser atribuído o serviço mas apercebi-me definitivamente que, apesar de ser enfermeira com gosto em qualquer sítio desde que haja pessoas para cuidar, a área de cardiologia não me apaixona da mesma forma como a pediatria ou os cuidados paliativos (dois extremos, quase antagonistas, eu sei, eu sei....). A acrescentar ao facto de não gostar muito da área, não a domino e não domino totalmente a língua em que tenho de me expressar, o que tudo juntinho e bem misturado, me cria ansiedade. 

Começamos há duas semanas nos serviços a trabalhar a sério, apesar de ainda sermos supranumerárias na primeira semana (deveríamos sê-lo durante quatro semanas mas estamos em tão short staff que nos largaram ao leões na segunda semana). A diferença entre os cuidados de enfermagem prestados aqui e os prestados em Portugal é enorme, o que mais uma vez foi um choque cultural (e técnico) difícil de digerir. Aqui aspectos essenciais do cuidar, como a promoção da independência e do autocuidado, são esquecidos em prole da medicação e de assuntos médicos que nos passariam totalmente ao lado em Portugal - exemplo, análises clínicas do doente. As rondas de medicação duram eternidades e são o processo mais desorganizado que já vi: uma ronda de medicação demora cerca de duas horas. Basicamente os enfermeiros aqui deixam de ter aquelas coisas de posicionar e coisas pesadas para terem que dar a medicação com atenção (tipo duas horas para a medicação das oito a.m). Como ainda sou nova no serviço, só fiz manhãs e tardes - só começarei a fazer noites e long days a partir do próximo horário, que se inicia a 13 de Maio. As patologias mais típicas do nosso serviço são as falências cardíacas, dor no peito, infartes do miocárdio, bloqueios cardíacos e doentes que realizaram angioplastia. São quase todos independentes, mas quando não o são estão realmente descompensados e very sick, como se diz aqui.

O problema é que aqui, embora não seja um trabalho muito físico e até haja talvez um dia por semana (numa boa semana) que é bastante tedioso, o caos instala-se facilmente porque são os enfermeiros que lidam com toda a burocracia: admissões com mais de dez páginas de formulários para preencher, faxes para enviar, contactar a farmácia, os GP's e as district nurses, marcar appointments com as enfermeiras especialistas e as reuniões multidisciplinares. É por esta falta de organização e por todos os registos serem feitos em papel que um serviço com doentes independentes pode transformar-se num autêntico circo, bastando para isso que se faça mais de uma admissão num curto período de tempo.

No que diz respeito à equipa, e incluindo aqui obviamente as minhas colegas portuguesas, só posso tecer os maiores elogios. São todos muito prestáveis, pacientes e o melhor é que há sempre chocolate no serviço, porque os nossos doentes são uns fofinhos que quando têm alta nos deixam cartões de obrigado e chocolates. Ontem, convidaram-nos para sairmos todos juntos, porque era o jantar de despedida da manager que saiu do serviço e que não chegamos a conhecer. Acabamos por não ir, porque fomos sair com outros enfermeiros portugueses que vieram antes de nós e que vivem no mesmo prédio. Não me arrependo de não ter ido, porque ainda não me sinto completamente à vontade, mas sinto que a equipa está contente com a nossa chegada e quer mesmo integrar-nos no seu meio. E isso é de certo modo reconfortante, quando ainda nos sentimos um pouco perdidas naquele ambiente.

Hoje faz um mês que cheguei a Inglaterra e na quarta-feira um mês que me tornei oficialmente enfermeira no Elizabeth ward - Cardiology no Whipps Cross University Hospital. A vida corre bem, o tempo passa rápido e dia 11 de Maio já volto por uma semana a Portugal. Ainda não temos rotinas criadas, não conseguimos estabelecer coisas certas e inimputáveis, não sabemos o dia de amanhã, mas sei que estou no sítio certo e, agora sim, sinto-me feliz profissionalmente, embora me façam falta agora coisas e pessoas que antes não dava valor porque sentia como certas.


Um mês, um mês inteirinho... Quem diria?

In days like this...


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Daquilo que nos faz crescer

Sempre vivi com os meus pais até me mudar para Londres. Mesmo nos tempos de faculdade, em que normalmente conquistamos a independência, estudei perto de casa e, portanto, continuei a morar com os meus pais. Vendo as coisas à distância, cresci pouco no que diz respeito a ser auto-suficiente e independente nesses tempos. Pelo mesmo motivo, fiquei perto da restante família e dos amigos que fui criando ao longo dos anos.

Para tudo tinha o pai e a mãe que ajudavam ou até faziam por mim. Quando não sabia ou receava ir sozinha, tinha sempre um amigo disponível. Nunca na vida tinha tratado sozinha de burocracias, de assuntos de finanças, rendas de casa, contratos, segurança social, água ou luz. Dos aspectos mais práticos, nunca tinha sentido a necessidade de limpar ou lavar a roupa. Eram aqueles assuntos que se resolviam na minha vida como por magia: se precisava, simplesmente estava lá.

E isto tornava-me ansiosa quando tinha de fazer algo importante por mim mesma: lidar com burocracias, com o banco, fazer uma viagem longa de carro sozinha... Mas, desde que cheguei, já andei sozinha por Stratford, fui abrir conta no banco, fui à descoberta sem saber bem por onde ia, tomei noção do que envolve viver sozinha e tratar de uma casa, partilhando-a com mais cinco pessoas. 

Na realidade, estou contente comigo mesma, porque me sinto a crescer de uma forma como nunca antes senti. Agora sou independente, responsável e finalmente uma adulta completa. Para ser feliz, faltam-me as minhas pessoas e consome-me, a cada dia, a saudade que aumenta. Se é fácil emigrar? Não, não é. Se o que descrevo parece um mar de rosas, posso afirmar certamente que não é. Os problemas e as dúvidas surgem em catadupa, as respostas nem sempre surgem, não é fácil, não é e ponto. Mas aguentamos-nos como podemos: afinal, estes são os primeiros dias do resto da nossa vida.


domingo, 8 de abril de 2012

Da Páscoa

Este ano é diferente. É igualmente a primeira de muitas das datas em que não estarei presente junto de mais um momento em família. E isto começa a maçar, a ideia de que a mudança é definitiva, que falharei as próximas Páscoas, os próximos Natais, os aniversários daqueles que me são mais queridos. E a certeza de que muitos desses momentos serão partilhados com desconhecidos que se tornarão quase uma família. 

Hoje é manhã de domingo de Páscoa. Aqui não há sol, nem cheiro a pão-de-ló, nem queijo da Serra, nem amêndoas. Não se ouvem foguetes, o compasso não toca o seu sino e as gentes ainda dormem. Há cheiro a rolo de carne assado, bolo de chocolate e pudim de croissant, para lembrarmos um pouco os cheiros familiares. Haverá uma garrafa de vinho maduro aberta sobre a mesa, sorrisos e partilha. Mas nada disso invalida o conforto de estar com aqueles que amamos.

Hoje o dia não será fácil. Mas é um dos revés que tenho de enfrentar para tentar ser feliz!

Um beijinho para todos, cheio de carinho. Boa Páscoa!